Os Estados de Sergipe e Alagoas, separados quase que em linha reta pelas águas do Velho Chico, são palco da embocadura do rio. Em qualquer dos pacotes turísticos que levam às capitais nordestinas, pode-se fugir do lugar comum e planejar uma viagem-cruzeiro até a foz do rio. Maceió, capital de Alagoas, no litoral Atlântico, fica a cerca de 130 quilômetros da foz do São Francisco. Dezenas de agências locais realizam diariamente viagens para o local. Normalmente, os ônibus saem pela manhã e levam cerca de duas horas até chegarem à cidade alagoana de Pontal da Barra. A viagem de ônibus, incluindo o passeio de barco, e uma refeição à bordo, custa algo em torno de R$ 80 por pessoa.
No balanço do barco, observando os povoados humildes às margens do São Francisco, as crianças de pele amorenada que nadam em suas águas limpas, a lembrança da imagem do rio Nilo e do deserto do Saara, mesmo para quem nunca esteve lá, é imediata. Dunas brancas que chegam a provocar irritação nos olhos, a alta temperatura que exige forte bloqueador solar e o azul profundo do São Francisco remetem ao continente africano. Para tornar mais contundente a semelhança, surgem barcos com um ou dois pescadores, velejando frágeis, ao sabor do vento.
Muito parecidos com as fellucas, veleiros egípcios que singram o Nilo, os barcos do Velho Chico vão jogar suas redes na parte mais profunda do rio. As velas, de cores fortes, impressionam os turistas. A relação da população ribeirinha com a água salta aos olhos: os forasteiros presenciam a perfeita harmonia entre homem, rio e barco. Para emoldurar o cenário, o pano de fundo nas margens são coqueirais nativos, que crescem por toda a parte. Novamente a lembrança do Nilo que está no inconsciente coletivo dos viajantes: os coqueiros evocam as tamareiras, plantas típicas do deserto.
Uma coisa que o Nilo não tem e o Velho Chico tem para dar e vender são as rendas, alvas e rústicas, de puro algodão. Em qualquer lugarejo sempre haverá um grupo delas, as mulheres rendeiras, a desfiar a linha, a correr os dedos ligeiros pelos fios, trançando tal qual a aranha, a teia.
Comprar as rendas não é suficiente. O turista deve se deter para ver e ouvir as melodias que embalam o trabalho das rendeiras. A cantiga mais famosa, com certeza, é essa que diz: ‘‘Olê mulher rendeira; Olê mulher a rendar ; tu me ensinas a fazer renda; Que eu te ensino a namorar’’. A música é de graça, e não tem preço. (M.B.)

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