No princípio de tudo havia Ry Cooder, exímio guitarrista e compositor americano – entre muitas referências notáveis, a trilha sonora de ‘‘Paris Texas’’, em 84. Em 1966, ele reuniu vários entre os melhores intérpretes cubanos para o que chamou de ‘‘Buena Vista Social Club’’, álbum recordista de vendas que acabou levando um Grammy, além de muitos outros prêmios Mas os músicos ali reunidos não eram apenas os melhores. Eram também os artistas veteranos da ilha, chamados pelos próprios cubanos de ‘‘super-avôs’’.
E como esta é uma trajetória entre camaradas de longa data, logo um velho amigo de Cooder veio se juntar à história. Quando o compositor decidiu voltar a Havana para uma série de apresentações com o grupo da histórica gravação, o diretor alemão Wim Wenders pegou suas câmeras e embarcou junto para registrar tudo – primeiro em Cuba, depois na Holanda e Estados Unidos. Isto levaria ao reencontro da dupla de ‘‘Paris Texas’’ e até ‘‘Buena Vista Social Club’’, o filme realizado em 98 (veja a programação de cinema na página 5), essencialmente um resumo dos espetáculos. Mas não apenas isto.
‘‘Buena Vista Social Club’’ é um filme milagroso em muitos sentidos. Primeiro, porque é habitado por encantadores senhores de idade provecta – além de extraordinários artistas – , alguns velhinhos que pareciam totalmente esquecidos pelos próprios conterrâneos e encostados por conta do INSS cubano. Segundo, porque a exibição mundo afora se converteu em fenômeno de massa, exatamente em razão da forma energética com que o cinema soube se aproximar de um recital ao vivo. Terceiro, porque habilmente evita todos os clichês e convenções, tanto do documentário musical como do registro turístico. E quarto – mas nem de longe o mais importante – porque conseguiu que o pomposo, supervalorizado e egocêntrico Wenders fizesse uma autolavagem cerebral, premiando a si mesmo com um filme sóbrio, sensível e cativante.
O longa-metragem intercala entrevistas com os membros da banda, os gloriosos anciãos Francisco Repillado, aliás Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Elíades Ochoa, o pianista Rubén Gonzales, ou mais jovens, como Barbarito Torres, o contrabaixista Cachaito López e a cantora Omara Portuondo. E imagens de La Habana dos automóveis pré-históricos, paredes descascadas, cães de qualquer raça vagando pelas ruas, da devoção pelos imensos charutos (não é preciso só saber fumar, mas saber como segurá-los), do decadente e eterno encanto. ‘‘Buena Vista Social Club’’ começa com fotos de Fidel e Che e termina com os integrantes da banda se apresentando no mítico Carnegie Hall de Nova York, com uma bandeira de Cuba sobre o cenário. Mas não é o que parece. Wenders soube despolitizar a narrativa. Não exalta o governo cubano, mas também não reforça a idéia de que estes veteranos artistas pré-revolucionáros, antes da redescoberta internacional, estavam em total ostracismo, vendendo cigarros e engraxando sapatos.
O documentário pertence ao esses homens-artistas. Cada um deles se apresenta em algum lugar característico de Havana, conta sua história e logo aparece tocando ou cantando no estúdio. Wenders pratica uma montagem interessante, alternando imagens dessas gravações com o registro ao vivo das mesmas musicas obtido nas séries de concertos da banda em 98, em Amsterdam e Nova York. O cineasta afinal parece respirar solto e livre, depois de alguns fracassos notáveis. Seu documentário está entremeado de humor e lirismo, combinados à perfeição com a música. E que música! Difícil, quase impossível permanecer imóvel diante desta feliz festa sonora, transbordante de ritmo sensual e inevitavelmente contagiante. Tudo, claro, proporcionado pela magnética humanidade, inocência, dignidade e imenso talento deste grupo da terceira idade.

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