Além da produção literária, o exercício da música também é forte dentro do Recanto do Tarumã, em Curitiba. Para espantar a tristeza e a solidão, nada melhor do que cantar e tocar. O interno Altavir Bozza, por exemplo, mantém em seu quarto duas gaitas, um violão, um cavaquinho, um pandeiro e uma gaita de boca.
Aos 67 anos de idade, ele relembra com saudades da época em que era músico profissional, integrante da Orquestra Baturitê, na Curitiba de quase meio século atrás.
Orgulhoso, conta que se apresentou várias vezes ao vivo em rádios como Guairacá e PRB2. ‘‘Éramos 80 músicos na orquestra e acompanhávamos artistas como Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Orlando Dias, Chico Viola, Francisco Alves, Emilinha Borba e Dalva de Oliveira quando eles vinham se apresentar em Curitiba’’, afirma. Esses shows, segundo ele, animavam bailes no Clube Curitibano, na Sociedade Thalia e em outros locais.
Sua alma de artista também fez com que, durante 30 anos, ele participasse ativamente do carnaval de Curitiba. Mais do que um simples folião, foi membro de diversas escolas de samba, como a Colorado, Embaixadores da Alegria, Amigos da Onça e Dom Pedro II.
Hoje, passa as tardes tocando vários instrumentos musicais que domina com grande habilidade. As melodias ecoam nos corredores da instituição. Muitas vezes, elas misturam-se aos sons de violino praticados diariamente por Celeste Gawieta, 70 anos.
De seu repertório fazem parte belos clássicos, animadas polkas e várias canções populares, como ‘‘Mocinhas da Cidade’’, da dupla Belarmino e Gabriela, que ele considera a sua preferida. Ninguém, nem ele mesmo, sabe como aprendeu a tocar tão bem.
Filho de lavradores, Gawieta começou a se interessar pelo violino ainda na infância. Aos 16 anos já tocava. Segundo ele, sem a ajuda de ninguém. ‘‘Eu via os músicos nos bailes e nos filmes e imitava’’, simplifica.
Assim como os pais, Gawieta também trabalhou como lavrador, mas chegou a animar bailes e festas de casamento com seu talento musical. ‘‘Meu primeiro violino foi construído por um dos meus irmãos mais velhos’’, lembra.
Ele conta que a família era numerosa e animada. Em casa, o pai costumava cantar polkas em polonês, as quais Gaweta acompanhava no violino. Depois de muitos infortúnios e reviravoltas em sua vida, ele explica que tudo o que sobrou foi a música.
Hoje, em seu quarto ou nos jardins do Recanto do Tarumã, chega a tocar durante tantas horas seguidas que sente dor nos ombros. Quando está animado também canta alto em português e polonês.
Todo o repertório é registrado por ele num velho gravador. As fitas são ouvidas mais tarde, nos poucos momentos em que não está tocando. Ele explica que cada música relembra uma passagem de sua vida. ‘‘Assim, consigo manter minha juventude viva através das memórias’’.

mockup