Velhas emoções de uma cidade


Marcos LosnakEspecial para a Folha2
Marcos LosnakEspecial para a Folha2
Imagem de Charles Marville(1865): rua de Paris destruída para dar lugar à modernização da cidade com grandes avenidas
Imagem de Charles Marville(1865): rua de Paris destruída para dar lugar à modernização da cidade com grandes avenidas | Fotos: Reprodução



Cidade não é apenas o lugar onde moramos, o lugar onde trabalhamos, ou o lugar onde dormimos todas as noites.
Cidade é o lugar onde sentimos.
A partir dessa constatação, traçar a história de uma cidade pode ser uma jornada afetiva. Esse é o caminho trilhado pelo editor e historiador francês Eric Hazan em "A Invenção de Paris", obra que acaba de ser lançado pela editora Estação Liberdade.
Em sua abordagem, Eric Hazan faz uso do conceito de psicogeografia desenvolvido pelo historiador Guy Debord (1931 – 1994). Um conceito leva em consideração os efeitos que o ambiente geográfico opera nos sentimentos, emoções e comportamentos dos indivíduos. No caso do espaço urbano, essa dimensão afetiva estaria reservada a todo e qualquer individuo em seu cotidiano.
"A Invenção de Paris" não traz a história da cidade em seu sentido clássico, com episódios e datas, mas através das observações de um transeunte que perambula por suas ruas ao longo de décadas. Uma perambulação que se estende aos séculos passados através de registros históricos, literários e fotográficos. A abordagem de Eric Hazan não começa com a fundação de Paris, que remete a um povoado muito antes da idade cristã, mas na Antiga Paris, ou a Paris Medieval, que se tornou uma grande potência europeia a partir do século 15. Uma cidade que ganhou sucessivas muralhas para depois germinar ‘faubourgs’ e ‘boulevards’. As revoltas e revoluções que tumultuaram a cidade também aparecem como fatores determinantes para o caráter urbano de Paris em constantes transformações.

A parte mais interessante da obra recai sobre o capítulo que olha para a cidade a partir da ótica dos escritores, pintores e fotógrafos. Os escritores ocupam lugar de destaque por retratarem Paris com afinco. Principalmente aqueles que criaram e colocaram em prática a ideia do ‘flâneur’, um conceito nascido especificamente em Paris.
A melhor definição da ideia de ‘flanância", vem de Charles Baudelaire: "Para o perfeito flanador, para o observador apaixonado, é um imenso prazer escolher um domicílio em meio à multidão, à ondulação, ao movimento, ao fugaz e ao infinito. Estar fora de casa e, ainda assim, sentir-se em casa em todos os lugares; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer escondido do mundo, estas são algumas das satisfações mais simples desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais que a língua só consegue exprimir desajeitadamente. O amante da vida universal entra na multidão como num reservatório de eletricidade. Podemos também compará-lo a um espelho tão vasto quanto essa multidão; a um caleidoscópio dotado de consciência que, a cada um de seus movimentos, representa a vida múltipla e a graça movediça de todos os elementos da vida."

Outro elemento revelador: a fotografia nasce em Paris em meados do século 19. E de maneira totalmente documental. As primeiras experiências daquilo que hoje chamamos de fotografia foram realizadas nas ruas da cidade. E os primeiros registros de imagens que deram origem à técnica fotográfica, retratam Paris onde a luz natural era necessariamente mais incisiva.
Um exemplo da fotografia surge em 1865, quando a administração municipal decide derrubar a parte antiga da cidade em nome da modernidade com o objetivo de criar grandes vias públicas. Contrata então Charles Marville para registrar tudo aquilo que seria derrubado. A intenção era mostrar como ruas e edificações que seriam suprimidas eram feias, miseráveis, um verdadeiro estorvo para a bela modernidade que deveria ser erguida. Hoje, essas mesmas imagens de algo que não mais existe, são cultuadas como detentoras de uma beleza perdida.
"A Invenção de Paris" revela um autor apaixonado por uma cidade e capaz de revelar coisas a partir de um ângulo onde a afetividade ocupa lugar de destaque. E também um homem que, movido pela paixão, considera que o saudosismo um remédio contra as piores experiências do presente em detrimentos às experiências do passado.
Para entender de maneira mais abrangente a psicogeografia de uma cidade, vale citar a impressão pensador alemão Walter Benjamin (1892 – 1940) sobre a cidade em questão: "Paris é a cidade dos espelhos. O asfalto de suas ruas, liso como um espelho, e sobretudo os terraços envidraçados diante de cada café. Uma superabundância de vidros e espelhos nos cafés para torná-los mais claros no interior e dar uma agradável amplidão a todos os compartimentos minúsculos. As mulheres aqui se veem mais do que em outros lugares."

Serviço:
"A Invenção de Paris – A Cada Passo Uma Descoberta"
Autor – Eric Hazan
Editora – Estação Liberdade
Tradução – Mauro Pinheiro
Páginas – 448 (capa dura)
Quanto – R$ 145

Velhas emoções de uma cidade





[left]Fragmento:

Nos anos 1960, a antiga ligação entre Paris e a fotografia começa a se desfazer. Para explicar isso, há o esgotamento mundial da fotografia em preto e branco, o fim de uma geração de fotógrafos formados no momento da Frente Popular, da guerra da Espanha e dos grandes filmes de Jean Renoir. E há, sobretudo, o enfraquecimento de Paris sob a brutalidade dos golpes sofridos na era De Gaulle-Pompidou: para que mostrar suas chagas abertas, suas úlceras, suas corcundas informes? O encerramento dessa época, a revolução de Maio de 68, resultará nas últimas fotografias célebres de Paris.

(Fragmento de "A Invenção de Paris", de Eric Hazan)[/left]



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