Telma Elorza

J.PedroBeto Maran e o barco que está sendo contruído pelo engenheiro naval Thierry Stump, um especialista em embarcações antárticas



Um projeto de vida ou um sonho de verão eterno? Quem for ‘‘workaholic’’ (ou viciado em trabalho, em bom português), que atire a primeira pedra. Mas ninguém pode deixar de admirar (e até invejar) a iniciativa de dois londrinenses. Eles pretendem estar, na virada do século, viajando pelos sete mares e conhecendo o mundo a bordo de um veleiro.
O cabeleireiro Luís Alberto Maran - ou simplesmente Beto Maran - e o professor de Educação Física e Analista de Sistemas Marcos Antônio Valério estão investindo tudo o que têm na construção de um sonho: uma embarcação antártica, com 41 pés e todo conforto de um lar. Com ela, querem dar a volta ao mundo, numa viagem que pode durar três anos.
Beto Maran diz que realizar tal façanha é um sonho antigo. Desde garoto, o mar sempre exerceu fascinação sobre ele. Viajar e conhecer o mundo também era outro ideal. Até que, há 10 anos, começou a fazer viagens para o exterior. Conheceu a Escandinávia, cruzou o Círculo Polar Ártico, rodou pela Europa toda.
Na última viagem que fez, à Noruega - um país com grande tradição marítima -, há dois anos, Beto Maran se entusiasmou de vez. ‘‘Comecei a querer viajar sempre. Mas, apesar de optar pelo tipo de viagem jovem - me hospendando em casas de família, hotéis e pensões baratas - só conseguia fazê-lo a cada três anos’’ - conta. Na volta, tomou contato com a aventura da família Schurmann, que ficou 10 anos no mar. Isto o deixou ainda mais animado.
Ir ou ficar? Foi quando chegou a hora da decisão: investir num sonho ou continuar com a vida de sempre? Não foi fácil, mas a aposta na qualidade de vida venceu. ‘‘No ano 2000, vou fazer 40 anos. Já estou realizado profissionalmente. Quero outras coisas para mim que só trabalho, que me ocupo a maior parte do tempo. E, nas poucas horas de lazer, estou cansado demais e acabo ficando com preguiça de fazer alguma coisa diferente. Até agora, por exemplo, não consegui aperfeiçoar meu inglês, um antigo objetivo’’ - explica o cabeleireiro.
Antes, porém, de qualquer decisão, Beto e Marcos foram até Santa Catarina exclusivamente para conversar com Heloísa e Valfrido Schurmann. ‘‘Nossa conversa com eles nos deixou mais entusiasmados ainda. Como nós, eles também não sabiam nada sobre navegação oceânica quando decidiram embarcar na aventura’’ - conta. Praticamente na mesma época, conheceram o navegador Almir Klink, que também os estimulou.
Foi aí que decidiram que seria melhor construir um barco que comprar um usado. Várias pessoas questionaram a decisão mas Beto explica que, apesar do Brasil ter quase 9 mil quilômetros de praias, não há tradição na navegação oceânica. ‘‘A maioria dos barcos brasileiros são feitos para ficar mais na área costeira’’ - explica. Além disto, o tempo que levaria para construir o barco - cerca de três anos -, também pesou na decisão. ‘‘Nós decidimos que iríamos usar este período para nos preparar, fazendo cursos de mecânica, navegação, primeiros socorros e tudo mais que é preciso aprender antes de sair pelo mundo’’ - diz Maran.
Através da revista ‘‘Naútica’’, Beto e Marcos entraram em contato com o engenheiro naval Thierry Stump, um belga que reside há vários anos em São Paulo e é um dos poucos especialistas em embarcações antárticas no Brasil. Stump, juntamente com os também engenheiros Fernando Mistorigo de Almeida e José Oscar Bentini, projetaram o barco dos sonhos de Beto e Marcos, que está sendo construído já há um ano e meio, num estaleiro em Itapevi (SP). ‘‘Esta, aliás, é a mesma equipe e o mesmo estaleiro que estão construindo o Paratii 2, o novo barco do Amir Klink’’ - diz o cabeleireiro.
O mais moderno Com 41 pés de comprimento - ou 13,5 metros -, com capacidade para comodar nove pessoas confortavelmente, o barco está sendo construído em alumínio naval, com os equipamentos mais modernos que existem. Inclusise bolina retrátil (para que possa navegar em águas rasas), e masteração Aerorig (um tipo de mastro que facilita manobras, permitindo que possam ser executadas por uma única pessoa), de 17 metros de altura, em fibra de caborno importada da Inglaterra. ‘‘Dos quatro barcos que estão sendo construídos no estaleiro, três - inclusive o do Amir Klink - estão usando este tipo de masteração. Somos os primeiros no Brasil a usá-la’’ - garante. Apesar de ser um veleiro, o barco vai ter também um motor Yangmar, de 76 HPs, indispensável nas manobras de atracamento e em emergências
Beto e Marcos vêm acompanhando a fabricação do barco, mês a mês. Segundo o cabeleireiro, é fundamental que se conheça o barco nos mínimos detalhes, até por uma questão de segurança. Segurança, aliás, é o que mais está na cabeça dos dois aventureiros. Eles vão, inclusive, fazer um curso de navegação com Amir Klink, na Ilha da Bexiga, no litoral carioca. ‘‘Queremos aprender tudo. Não vamos deixar nada ao acaso’’ - garante.
No bolso Beto não diz quanto gastou, até agora, com a realização deste sonho. ‘‘Posso afirmar que eu tinha duas opções. Ou construia o barco ou construia uma casa de 400 metros quadrados num terreno que tenho no Jardim Quebec. Mesmo sendo um investimento alto agora, vale a pena. Depois o custo cai. Entre manutenção pessoal e do barco, gasta-se cerca de US$300 ao mês por pessoa’’ - afirma.
Embora não embarquem na aventura antes de 1999, Beto e Marcos já estão com tudo praticamente definido, em suas cabeças, menos o roteiro a seguir. ‘‘Ah, eu quero fazer tantas coisas quando esta viagem começar. Quero conhecer pessoas, lugares, melhorar meu inglês, aprender italiano, fotografar, mergulhar...Voltar a exercitar meu lado artista plástico, que anda sumido. Qualidade de vida é o que estou buscando hoje, para mim’’ - diz.
A preocupação com a possibilidade de faltar dinheiro no meio da viagem nem os preocupa. ‘‘Um veleiro como este praticamente se paga, prestando serviços a turistas. Além do mais, eu levo minha profissão no bolso. Para mim, basta um pente e uma tesoura que me viro’’ - garante.

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