Vejo Deus nas obras-primas
Acho que já encontrei pessoas que não eram bem deste mundo. Gente cujo talento excedia a média e que admirei profundamente. Diante de algumas pessoas me senti como se visse Deus e isto pode ser compreendido como a faísca divina que todo ser humano carrega, sendo que em alguns a faísca brilha mais.
A primeira vez que vi Deus foi num show de Astor Piazzolla, o único que ele fez em Londrina. Chovia muito numa noite de 1989, quando cheguei ao Teatro Ouro Verde. Desde a entrada, um frisson tomava conta do público. Todos sabiam que algo excepcional aconteceria. O ''nuevo tango'' acalentava meus ouvidos há algum tempo, adorava ouvir as músicas que exalavam beleza, sensualidade e me colocavam em estado de contemplação sonora.
Naquela noite chovia tanto que a impressão era que um dilúvio anunciava um acontecimento e, de certa forma, anunciava mesmo.
Com o temporal desabando sobre a cidade, não havia teto para o avião que traria Piazzolla e o seu Sexteto aterrissar em Londrina. Já passava das 20 horas quando o tempo melhorou e um jatinho particular decolou de Curitiba com os artistas. O show estava marcado para as 21 horas. Às 21h30 Piazzolla desembarcou e às 21h50 pisava no palco executando os primeiros acordes de um tango. Todas as poltronas estavam ocupadas, cerca de 900 pessoas, completamente emocionadas, ouviam aquele repertório que levava nossos corações a Buenos Aires ou a qualquer Pasárgada onde a vida é sempre melhor. A arte tem este poder, de melhorar nossas vidas ou tocar nossos sentimentos mais delicados. Assim, na noite em que vi Deus pela primeira vez, a impressão é que estava participando de um grande acontecimento. E estava. Quando Piazzolla tocou ''Adios Nonino'' eu não contei, mas tenho quase certeza que 900 pessoas choravam na platéia. Muitos anos depois, quando vejo Piazzolla na TV, penso naquela noite como um dos melhores presentes que ganhei na vida.
A segunda vez que vi Deus foi num concerto de Hans-Joachim Kollreutter, um dos gênios da música contemporânea, alemão radicado no Brasil, onde se tornou amigo de Villa-Lobos e Mário de Andrade, além de professor de Claudio Santoro e Tom Jobim.
O concerto de Kollreutter revelou-me a sensibilidade de um músico totalmente absorvido pela sua arte. Um pianista e seu instrumento transitando entre este mundo e um outro. Não era difícil ver as mãos de Deus nas suas mãos e no modo como executava cada obra, com a concentração daqueles que se exilam na música.
O mais impressionante era sua presença, não só no palco, mas fora dele. Quando o concerto terminou e se formou uma fila de pessoas para cumprimentar Kollreutter que desceu do palco, esperei pacientemente minha vez para ter o prazer efêmero de apertar sua mão. Fui apresentada a ele pela amiga Janete El Haouli, uma das responsáveis por sua vinda a Londrina, e, de repente, me vi diante de um senhor de olhar muito calmo, vestido com uma bata amarela, como se fosse um monge zen, que inclinou levemente a cabeça e me cumprimentou como quem diz ''Namastê!'' Ou: ''O Deus que está em mim reverencia o Deus que está em ti''. E este foi meu contato com um compositor admirável. Ele morreria em 2005, poucos anos depois de eu ter assistido ao seu concerto, com o respeito de quem sabe que artista estava diante do público naquela noite.
Em 2008, acho que vi Deus pela terceira vez. Um deus dionisíaco, é verdade, tão entusiasmado com sua arte que embora tenha quase 70 anos, parece que tem sempre 18. Eugenio Barba, que esteve algumas vezes em Londrina pelas oportunidades que o FILO nos proporciona, tem uma ligação antiga com a cidade. De vez em quando, a convite do festival, ele sai da fria Dinamarca, onde dirige o grupo Odin, quase tão lendário quando a divindade que lhe inspira o nome, e chega aqui para nos mostrar as maravilhas do teatro.
No ano passado, assisti ao espetáculo ''Andersen's Dream'' e foi como entrar num conto de fadas. A magia dos atores do Odin está no modo como representam e ''vivem'' cada montagem. Além do que acontecia em cena, eu prestava atenção em Eugenio Barba na platéia e via um criador satisfeito com sua criação. O espetáculo que termina de modo simbólico, com todos os atores queimando suas imagens plotadas, me deu a impressão de que a arte é mesmo um rito de passagem deste para outro mundo. Na travessia, quando a gente abre bem os olhos, vê Deus, pai de toda obra-prima.
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





