VEJA O FILME, OUÇA O CD
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terça-feira, 09 de janeiro de 2001
Nelson Sato De Londrina 
O maestro koellreutter costuma dizer que o futuro da música erudita será funcional servindo cada vez mais a filmes, balés, vídeos e peças de teatro. Mas no Brasil de 2001, a incipiente produção de trilhas é um domínio ocupado por compositores de registro popular não existindo ainda um mercado para a criação de peças sonoras mais ambiciosas.
A retomada do cinema nacional, contudo, tem oxigenado o setor não só por colocar em evidência as parcerias musicais dos diretores mas também e especialmente por revelar propostas híbridas que cruzam as fronteiras de gêneros. É o caso das trilhas dos filmes O Auto da Compadecida (dirigido por Guel Arraes) e Quase Nada (Sérgio Rezende), recém-lançadas em CD pela gravadora Natasha.
A primeira é assinada pelo grupo recifense Sa Grama, cuja formação se assemelha a uma pequena orquestra de câmara, embora trabalhe com a cultura popular de Pernambuco. A segunda foi composta pelo carioca David Tygel, ex-componente do quarteto vocal Boca Livre e um dos mais prolíficos autores de trilhas do país tendo já emprestado seu talento para o documentário Antes Uma Viagem pela Pré-História e para longas como For All O Trampolim da Vitoria e Minha Vida em Suas Mãos.
Entre as duas, pesa um dado fundamental, que é justamente o que distingue um produto autônomo de outro que depende das imagens do filme para sobreviver. Aqui, o mérito fica com os 14 temas instrumentais da versão cinematográfica da obra de Ariano Suassuna todos criados pelo Sa Grama, à exceção da faixa de abertura, de domínio público.
O flautista Sérgio Campelo assina a maioria das músicas. Além dele, fazem parte do grupo Frederica Bourgeois (flautas), Fábio Delicato (violões), Cláudio Moura (violão e viola nordestina), Crisóstomo Santos (clarinete), Antonio Barreto (marimba e percussão), Homero Basílio (percussão), Gilberto Campello (percussão) e Thiago Founier (contrabaixo acústico).
Na trilha, a performance do grupo é excepcional. Quem não assistiu o filme mas viu a série exibida pela Globo, pode ouvir pelo menos 60% do disco de estréia dos músicos embalando as cenas. A versão cinematográfica, por sua vez, inclui duas faixas do segundo CD do Sa Grama: Engenho (major desafia João Grilo) e Mãe dos Homens (tema da Compadecida).
O grupo foi formado no Conservatório de Pernambucano de Música, em 1995, a princípio interpretando música erudita brasileira (Villa-lobos, Camargo Guarnieri, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Ernesto Nazaré etc). Numa segunda etapa, pesquisou o folclore da região para em seguida fundamentar uma sonoridade própria imprimindo tratamento refinado aos elementos rústicos.
No CD do filme, as sutilezas harmônicas e timbrísticas recobrem ritmos como aboio, ciranda, maracatu, coco e choro. É o som do agreste com roupagem (quase) de concerto. Menos estimulante, mas rico em texturas, a produção de David Tygel para o longa de Sérgio Rezende (vencedor do prêmio de júri popular em Gramado) alterna trechos incidentais, diálogos do filme e conta ainda com a participação de Renato Teixeira em uma canção.
Os arranjos incluem cítaras, orquestra de cordas, sopros e até sons de um copo de cristal. No texto de apresentação do CD, Rezende escreve que se trata de uma das melhores trilhas do cinema brasileiro de todos os tempos. Não é bem assim, não. Dá até para dizer, abusando do clichê, que o disco não se sustenta sem o filme.


