Ninguém é inocente de imaginar um sucesso estrondoso, como aquele conquistado pelo pancadão carioca no último verão. Mas ninguém pode subestimar o interesse que a música ‘‘black’’ brasileira de qualidade vem despertando no mercado fonográfico.
Se jovens como Max de Castro, Simoninha e Jairzinho de Oliveira estabeceram um perfil mais contemporâneo ao gênero como integrantes do grupo ‘‘Artistas Reunidos’’, nomes da velha guarda como Gerson King Combo e Bebeto voltam a abarrotar bailes e pisar em estúdios de gravação.
Há uma euforia inegável no ar. ‘‘Eu chamo a black music de elo perdido da música popular brasileira’’ – diz o compositor e produtor Bernardo Vilhena. ‘‘Artistas como Jorge Benjor, Tim Maia, Luiz Melodia e Sandra de Sá alcançaram sucesso, mas um sucesso individual. Eram árvores, não uma floresta. Agora, a nova geração está recuperando esse fio de uma forma coletiva’’.
Vilhena comanda a nova gravadora Regata, especializada no gênero. Como compositor, é figura carimbada no pop nacional. Nos anos 80, assinou várias músicas com Lobão e Ritchie. Depois, aproximou-se do universo black participando de sucessivos trabalhos em todas as grandes gravadoras. Fundou a Regata em dezembro do ano passado.
Diz que está realizando um sonho. ‘‘Há pelo menos dez anos, concentrei meu trabalho de letrista nesse segmento. Fiz parcerias com Cláudio Zolli, Toni Garrido, Ivo Meireles e outros. Sempre achei que havia possibilidades mercadológicas para esse tipo de música, desde que existisse um trabalho forte de produção e divulgação em cima. Na Regata, todos os artistas contratados são viáveis, todos têm apelo popular para tocar em rádio’’.
A gravadora abriu as portas para o funk, o soul, o r&b e o samba-rock. Os louros começam a ser colhidos. O CD ‘‘É Isso A풒, trabalho de estréia da cantora paulista Paula Lima, foi recebido com elogios pela crítica. As rádios já executam a faixa-título (de autoria de Sidney Muller) e ‘‘Quero Ver Você no Baile’’ (de Seu Jorge e Gabriel Moura).
No disco, a cantora esbanja afinação ao lado de convidados especiais como Ed Motta, Gerson King Combo, Funk’n Lata e o rapper Xis. Em dois shows que fez no Rio, no começo da última semana, saiu aclamada do palco. Para Vilhena, artistas como Paula e Simoninha ‘‘rompem com a tradição hegemônica de intérpretação italiana, trazendo a escola negra para o centro da música popular’’.
Apostando na black music nacional, a gravadora Regata vai aos poucos engordando seu elenco. Além de Paula, tem em seu catálogo o CD de estréia do grupo vocal Classe e mais uma batelada de títulos que chega às lojas ainda nesta temporada. Na próxima semana, sai o disco-solo de Seu Jorge, cabeça do grupo Farofa Carioca.
Intitulado ‘‘Samba Esporte Fino’’, o CD foi produzido e mixado em Los Angeles por Mario Caldato e Seu Jorge. Inclui participação especial de Carlos Dafé, lenda-soul dos anos 70. Já na primeira semana de julho, será a vez do aguardado CD do Clube do Balanço, liderado pelo guitarrista e vocalista Marco Mattoli.
O grupo tem lotado domingueiras em casas noturnas paulistanas. A partir do dia 1º de julho, fixa residência no Ben Ben Club. O disco de estréia vem recheado de convidados, entre eles Erasmo Carlos. O lançamento será acompanhado da exibição de um documentário sobre a história do samba-rock, incluindo várias entrevistas especiais.
Para o segundo semestre, está prometido o retorno da mítica Banda Black Rio, que volta ao estúdio depois de amargar 21 anos no ostracismo. Liderada pelo saxofonista Oberdan Magalhães, a BBR foi montada em 1976 e contava ainda com Luiz Carlos na bateria, Barrosinho no trumpete, Lúcio no trombone, Cláudio Stevenson na guitarra, Jamil Joanes no baixo e Cristóvão Bastos no piano.
Na época, lançou três álbuns – ‘‘Maria Fumaça’’, ‘‘Gafieira Universal’’ e ‘‘Saci Perer꒒ – e acompanhou Caetano Veloso no disco ‘‘Bicho’’ e no espetáculo ‘‘Bicho Baile Show’’ tocando também ao lado de Luiz Melodia no álbum ‘‘Maravilhas Contemporâneas’’. Agora, 24 anos depois, a Banda Black Rio é resgatada pelo filho do Oberdan, o pianista Willian Magalhães e prepara sua estréia com um disco inédito.
O CD está sendo gravado no RJ com produção dividida pelo próprio Willian e pelo Lula com direção de voz de Cassiano. É de emocionar.

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