Vazio sem fim
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de junho de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Com uma história pesada e emocionante, o longa ''Reencontrando a Felicidade'' - que estreia hoje na sala do Cine Com-Tour/UEL - não faz jus ao otimismo de seu título em português. O nome original, ''Rabbit Hole'' (traduzido literalmente como ''Buraco do Coelho'') simboliza com muito mais clareza o objetivo dramático da película: a tragédia que assola a casa dos personagens principais pode ser comparada com o buraco sem fundo das histórias de Lewis Carrol, uma queda que ninguém sabe quando - e se - um dia irá terminar.
Com o roteiro adaptado de uma peça teatral de David Lindsay-Abaire, no início do filme somos apresentados gradualmente ao cotidiano de Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), um casal que, há oito meses, perdeu seu único filho Danny, de apenas 4 anos, tragicamente atropelado por um carro. O casal, deprimido e infeliz, tenta buscar ajuda emocional em um grupo de apoio conjugal, com pais que também perderam seus filhos. Paralelamente a tudo isto, a personagem de Izzy (Tammy Blanchard), irmã mais nova de Becca, anuncia que está grávida, e isto serve para despertar velhos fantasmas escondidos na memória do casal.
Conforme o filme avança, o espectador vai descobrindo que, por detrás das aparências comuns de Howie e Becca, existem camadas profundas de dor e cicatrizes que parecem nunca se curar completamente. Os dois procuram escapar de maneiras diferentes da dor insuportável que carregam: Becca encontra acidentalmente o adolescente Jason, que estava dirigindo o carro que atropelou seu filho Danny, e desenvolve uma peculiar amizade com o rapaz, com os dois se consolando mutuamente pela fatalidade. Enquanto isto, Howie também estabelece uma ligação com Gaby (Sandra Oh), uma mulher do grupo de apoio com quem começa a fumar maconha e rir um pouco, para variar.
Não deixa de ser surpreendente que, no meio de uma narrativa deprimente, ainda exista muita beleza que pode ser vista durante ''Reencontrando a Felicidade''. O desenvolvimento do filme é favorecido graças aos personagens bem escritos, às interpretações impecáveis de Kidman e Eckhart e uma direção sensível e comovente do cineasta John Cameron Mitchell, que consegue tratar os temas difíceis sem transformar o filme em um dramalhão mexicano. A dor subliminar e constante, que pode ser percebida dentro do olhar de cada um dos envolvidos na tragédia, é um fator muito mais relevante dramaticamente do que um rio de lágrimas.
Consolidando-se como um dos melhores dramas da última safra cinematográfica, não vá ao cinema esperando um final feliz; a mensagem de ''Reencontrando a Felicidade'' não é sobre a superação do vazio deixado pela morte de um ente querido, mas sobre a necessidade de seguir em frente, apesar de saber que a vida nunca mais será completa como antes.


