São Paulo, 25 (AE) - Nada melhor do que ir ao teatro, rir muito com uma peça e depois levá-la para o bar, ou seja, continuar divertindo-se numa discussão acalorada sobre o que se viu no palco. O casamento entre humor e reflexão é o que promete "O Que o Mordomo Viu", peça do inglês Joe Orton, traduzida pela crítica teatral Bárbara Heliodora, que estréia amanhã no Centro Cultural São Paulo. No elenco de seis atores estão Marcos Daud, também responsável pela adaptação, e Ary França, sob direção de Alfredo de Aguiar.
"O Que o Mordomo Viu é um texto brilhante, um dos grandes textos de nossa época", diz Daud. A ação transcorre numa clínica psiquiátrica particular de propriedade do sedutor e inconsequente Dr. Prentice, interpretado por Daud. Tudo começa quando ele é flagrado pela mulher (Suia Legaspe), logo após convencer uma candidata a secretária (Zuzu Abu) a tirar a roupa durante uma entrevista "profissional".
Para aumentar a confusão, sua mulher também não é exatamente uma santa e, atrás dela, entra na clínica um sujeito que a está chantageando com fotos obscenas. E tudo vira loucura de vez, com a chegada de mais dois personagens: o Dr. Rance (Ary França), um psiquiatra que trabalha para o governo e vem inspecionar a clínica, e o sargento Match, que imagina encontrar ali os culpados de um crime.
A estrutura da peça é de Vaudeville, ou seja, quiprocós, troca de identidade, ruídos na comunicação e uma grande surpresa no fim. "Mas o autor usa espertamente essa estrutura como base para discutir valores vitais para o ser humano", comenta Daud. "Como todos os bons autores britânicos da década de 60, ele espelha a revolução dos costumes da época e questiona o poder."
Sátira - Assim, o autor satiriza o governo na figura de seu representante, o Dr. Rance, uma espécie de dono da verdade que tira do bolso teorias psicanalíticas as mais absurdas para todos os que cruzam o seu caminho. À sua maneira, o sargento também resolve intrometer-se na administração da clínica, desta vez como representante de um outro tipo de poder de Estado, igualmente prepotente.
"Criado na chave do humor, o texto permite muitas leituras", afirma Daud. Apesar disso, diretor e elenco optaram pela simplicidade. Com passagem pelo Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, Alfredo Aguiar afirma ter aprendido que a maior ambição de um diretor é contar bem uma história, com clareza e simplicidade. "Não se deve cair na tentação de criar um espetáculo falsamente profundo, no qual as idéias predominem sobre a emoção, porque, se a gente conseguir ser simples e direto, o espectador vai tirar suas conclusões e saber ele mesmo refletir sobre o que viu." Serviço: "O Que o Mordomo Viu". De Joe Orton. Adaptação de Marcos Daud. Direção de Alfredo Aguiar. Com Alexandre Reinecke, Ary França e outros. Duração: 1h45.De quinta a sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 12,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 3/10. Patrocínio: Prefeitura Municipal de São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura e Centro Cultural São Paulo

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