Variação sobre o mesmo tema
Ousar nunca foi o verbo predileto de Leila Pinheiro quando se trata da feitura de um disco. É público e notório o seu compromisso com o requinte e a sofisticação. Porém, o que poderia ser uma luminosa virtude acaba, com o correr do tempo, causando uma certa confusão entre o que é estilo propriamente dito e o que é repetição pura e simples. Na Ponta da Língua, portanto, é apenas - e só - mais um disco de Leila Pinheiro.
Banal e inconsistente obviamente o trabalho não é. Mas também não é nenhuma maravilha de outro mundo. É, com ou sem trocadilho, como queiram, um disco redondinho que tem um quê de já-te-ouvi. Sabem aquela história de variação sobre o mesmo tema? Pois é... Não sejamos, por outro lado, tão injustos: Na Ponta da Língua tem lá seus grandes momentos.
Das músicas inéditas, Leila recebeu Abril, uma pepita de Adriana Calcanhoto cuja melodia interessante e versos delicados comprovam que ela é uma das mais talentosas compositoras da nova geração. Outra maravilha é o samba Ainda Mais, (Eduardo Gudin-Paulinho da Viola). Entretanto, a melhor faixa do disco - reforçada por uma rara interpretação dramática de Leila, é a belíssima balada Por Favor. Trata-se de um comovente encontro da melodia de Ivan Lins com a poesia de Aldir Blanc.
Das regravações, pelo menos duas merecem destaque. A primeira é Mais Uma Boca em que Leila deixa seu lado intimista para encher-se de dor social de uma das preciosidades de Fátima Guedes. Uma interessante releitura. A segunda é dolorosa Ventos do Litoral (Renato Russo-Dado Villa Lobos-Marcelo Bonfá) que parece ter sido feita de encomenda para a dolorosa Leila Pinheiro. Por via das dúvidas dêem uma ouvida em Sentado a Beira do Caminho (Roberto-Erasmo Carlos).
É bom frisar uma coisa: Na Ponta da Língua é melhor revestido sonoramente que alguns trabalhos anteriores da cantora, que davam a impressão de terem sido feitos para animar coquetéis dançantes, tocar em sala de espera de clínicas homeopáticas ou, na pior das hipóteses, para quebrar o silêncio de elevadores. Exemplos? Pois não: Bênção Bossa Nova (89) e Coisas do Brasil (93).
Porém, por melhor intencionada que se apresente Leila Pinheiro não apresenta maiores inovações. Quem ouve a primeira faixa - que dá nome ao disco - pode até pensar que ela resolveu sair da sua cantilena. Ledo engano. Isso aconteceu apenas no seu trabalho anterior, o belíssimo Catavento e Girassol. Em Na Ponta da Língua, Leila retorna triunfal ao convencionalismo. Fãs de carteirinha certamente vão bater palminhas. (A.M.J.)





