VARGAS LLOSA, um defensor das palavras
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2007
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Aos 71 anos, o escritor peruano Mario Vargas Llosa participa de uma batalha com o que julga ser um malefício para a atual literatura latino-americana: a tendência para uma escrita bem articulada, inteligente, mas vazia de pensamentos, útil apenas como entretenimento. ''É uma tendência americana que devemos evitar'', conta o autor. Ele esteve no Brasil, dias atrás, para um encontro com o público, ao mesmo tempo em que prestigia o relançamento de sua obra, agora pelo selo Alfaguara.
Para Llosa, passada a esmagadora fase do realismo fantástico (''uma espécie de literatura, aliás, muito indefinida pois todo tipo de escrita parecia se encaixar ali''), a literatura não pode se aproximar do cinema ou da televisão como forma de atrair público. Antes de conquistar novos leitores, a medida provocaria a lenta morte da boa literatura, privilegiando apenas a diversão.
Escrever é, para qualquer escritor, uma forma de afugentar demônios internos, às vezes como forma de protesto. Depois de ter escrito tantos livros, o senhor ainda dispõe, digamos, de muitos demônios para exorcizar?
Com certeza. A vida não me será suficiente para contar todas as histórias que gostaria de contar. Tenho muitos projetos mas, infelizmente, acho que não terei tempo suficiente. Nunca enfrentei um problema comum aos escritores, que é enfrentar a página em branco. Jamais fiquei paralisado com períodos de infecundidade. Comigo acontece o contrário: não tenho tempo necessário para escrever tudo o que pretendo. Talvez por conta da demora que não tenho na elaboração de um livro, algo como dois ou três anos.
Escrever é um ato sacrificante?
Há períodos difíceis, especialmente a fase inicial com a primeira versão. Já perdi até um ano em organizar a história. E o que me estimula é reescrever: gosto de corrigir, de castigar a linguagem. Em princípio, sinto a história como algo muito distante mas, à medida que o trabalho progride, chego ao final com a sensação de que tudo que vivo está na história que escrevo.
O que lhe interessa hoje na literatura latino-americana?
Gosto muito do que escreveu Roberto BolaÀo, justamente por estar contra a corrente da literatura light, hoje dominante. Trata-se de obras bem elaboradas, mas facilmente esquecíveis, enquanto BolaÀo buscava romances ambiciosos, ao estilo dos escritos do século 19. Hoje, temos menos literatura fantástica que há alguns anos. A moda realmente passou. Não vejo agora uma corrente dominante, mas sim essa literatura ligeira, que considero preocupante. Apesar de criativa, essa escrita não passa de entretenimento e, se não passar disso, a literatura vai perder a batalha para a televisão e o cinema. Não se pode competir com o ''Homem-Aranha'' e ''Piratas do Caribe'', que acho muito divertidos, mas é uma derrota certa. Contra o cinema, devemos batalhar com os demônios de Dostoievski. Aí sim a vitória é certa.


