Vânia canta as mulheres
Nelson Sato
De Londrina
O ecletismo já despersonalizou e derrubou muitas cantoras. Mas o trânsito entre ritmos, estilos e gêneros musicais diferentes é enfrentado sem extravios pela cantora Vânia Bastos. Ela se apresenta hoje em Curitiba no Espaço Canal da Música com o show de seu novo disco Belas e Feras, em que homenageia as mulheres compositoras brasileiras. O espetáculo começa às 21 horas com o repertório calcado no novo CD, além de uma seção dedicada a Tom Jobim, Dorival Caymmi e Adoniran Barbosa.
Vânia, 42 anos, é do primeiro time de intérpretes do País. Começou a carreira fazendo os vocais na banda Sabor de Veneno, comandada por Arrigo Barnabé durante os anos heróicos da vanguarda paulistana, depois ampliou seu universo musical mergulhando na MPB tradicional. Mais tarde, emplacou algumas músicas em trilhas de novelas.
Belas e Feras, o oitavo título de sua carreira solo, reúne canções de nomes como Chiquinha Gonzaga, Dona Yvone Lara, Rita Lee, Marina Lima e Adriana Calcanhotto. A única exceção é a faixa Ternura, sucesso da jovem guarda na voz de Wanderléa. A composição é uma versão de Rossini Pinto para a música Today, de Estelle Levitt e Kenny Karen.
O disco foi produzido por Mário Manga. É um trabalho quase impecável, não fosse o deslize de inserir guitarra na faixa Forró do Zé Lagoa, poluindo a tradição rítmica nordestina com um recurso já exaurido pelas bandas de rock surgidas ao longo da década na cola dos Raimundos.
Belas e Feras é o lançamento inaugural do selo PlayArte, que acaba de lançar também o novo álbum da cantora Belô Velloso. A seguir, a entrevista que a cantora concedeu à Folha2, por telefone.
Como bateu o estalo de fazer um disco só com músicas de mulheres compositoras?
Um dia, de madrugada, eu pensei: o Brasil tem grandes compositoras, e fazer um trabalho em homenagem a elas daria um grande disco. Falei dessa idéia para algumas pessoas e todas gostaram. Daí pensei naquelas compositoras com as quais me identificava mais e comecei a garimpar o repertório. Não queria realizar um disco histórico, didático e explicativo do tipo: olha, as mulheres desse século são essas! Queria apenas dar a minha visão a partir de um olhar contemporâneo.
Mas você incluiu a canção Ternura, que foi imortalizada por Wanderléa, mas que não é dela.
Fiz essa concessão porque a Wanderléa é minha referência de infância. Foi ela que me fez querer ser cantora. Pensei em gravar também A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran, que é outra influência de época. Mas percebi que aí o disco ficaria com cara de lembrança. Optei por diluir essa história. Aliás, quando conversei com a Marina Lima, ela me sugeriu que eu gravasse uma música recente em vez de fazer uma releitura de uma composição antiga. Fiquei até um pouco surpresa por ela ter me oferecido Uma Antiga Manhã, que é de seu último disco. Geralmente, as pessoas não gostam que reinterpretem uma música que acabaram de gravar. Achei bacana esse desapego dela.
Você já esgotou o tema, acha que as compositoras já foram bem homenageadas com esse disco ou planeja lançar um volume dois?
Não esgotei não. Tem muita coisa, não dá para gente englobar tudo. A Sueli Costa, por exemplo, que é outra que eu adoro, ficou de fora. Mas esse negócio de volume dois, é um perigo ...
Você já se arriscou a compor?
De vez em quando escrevo umas letras, mas fico em dúvida se ficaram legais e acabo deixando quieto. Talvez seu eu tocasse violão ou piano desenvolveria esse lado. Mas eu gosto tanto de cantar, que não paro para pensar muito nisso.
Você transita por vários ritmos e gêneros sem deixar a peteca cair. Qual é a fórmula para domar o ecletismo, que no Brasil ganhou má reputação depois de derrubar algumas cantoras sem personalidade?
Nunca pensei direito sobre esse assunto. Comigo, isso flui com naturalidade. Talvez porque eu goste verdadeiramente de todos os gêneros musicais e faça isso desde o primeiro disco, bem antes de começaram a falar de ecletismo. Tenho um leque muito vasto de referências. Sempre gostei de música popular, depois estudei música erudita e trabalhei com o Arrigo Barnabé. Nesse disco canto um forró de Anastácia, que algumas pessoas poderão estranhar. Mas eu sempre cantei e dancei forró. E essa música particularmente fala de São Paulo de um jeito bem sutil: Fim de semana / aqui na terra da garoa /o melhor negócio / é o forró do Zé Lagoa. Pra mim, foi verdadeiro cantar isso aí.
Como é o seu processo de trabalhar numa releitura? O que você prioriza na hora de regravar uma música que já ficou conhecida através de outro intérprete?
Eu experimento. Eu vejo se tal música vai se dar bem com a minha voz, ou se minha voz vai combinar com a música. Uma releitura envolve várias coisas. A voz de quem está cantando pela segunda, terceira ou quinta vez já é um elemento novíssimo, já que o jeito de pronunciar as palavras altera tudo. O arranjo é outro elemento importante. O que não pode é cantar como se fosse um crooner de baile ou de bar com arranjo igualzinho, não dá. Você tem que saber o que quer e para quem você vai pedir. Se você pedir um arranjo para a pessoa errada, vai ficar gozado. Acho que existe uma alquimia que vai se formando e, de repente, você fala: que interessante que ficou!
Você já teve três músicas incluídas em trilhas de novelas. O que isso ajudou em sua carreira?
Houve uma grande expansão de meu público por causa disso. A música Canta, Canta Mais, do Tom e do Vinícius, ganhou bastante popularidade porque foi tema do par romântico da novela Éramos Seis (SBT). Eu percebo bem isso quando saio em shows pelo País. Uma vez, uma mulher chegou e me falou: você que canta aquela música!. Outra vez, uma criança entrou no camarim e falou que sabia cantar a música inteira. E cantou mesmo. Em outra ocasião, fiz um show em Brasília para umas mil pessoas num teatro lotado. A platéia me acompanhou em coro. Foi um momento inesquecível. Isso tudo me provou que mesmo uma música mais ou menos sofisticada, pode cair no gosto do grande público. Basta que as pessoas tenham acesso a ela.
Belas e Feras, show de lançamento do disco homônimo de Vânia Bastos. Hoje, às 21 horas, no Espaço Canal da Música, em Curitiba (Rua Júlio Perneta, 695). Informações (41) 335-5273. Ingressos: R$ 10,00 e mais um quilo de alimento não perecível.
REPERTÓRIO DE BELAS E FERAS
-Uma Antiga Manhã Marina Lima
-Ternura Rossini Pinto / homenagem a Wanderléa
-Namorado Fátima Guedes
-Rosa Cálida Lucina
-Seguir o Coração Joyce
-Alegria Ocidental Daniela Mercury
-Não Chora, Neném Yvone Lara
-Ele Mexe Comigo Baby Consuelo
-Forró do Zé Lagoa Anastácia
-Dançar Pra Não Dançar Rita Lee
-Nada Amor Klébi Nori
-Só Nos Resta Viver Angela Rô Rô
-Alegre Adriana CalcanhottoEm seu novo disco, Belas e Feras, Vânia Bastos interpreta músicas de compositoras brasileiras. Hoje tem show de lançamento do CD em Curitiba
DivulgaçãoDivulgaçãoVânia Bastos: olhar contemporâneo sobre obras de compositoras brasileiras





