‘‘John Cage dizia o seguinte: se você introduz 20% de novidade, perde 80% de público. Acho que ele era otimista’’. A observação, feita pelo cineasta Peter Greenaway, é uma das sábias epígrafes recolhidas em Música de Invenção, novo livro do poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos.
O compositor Cage, o cineasta Greenaway e o próprio poeta Augusto conhecem a fundo o drama dos que ambicionam superar as convenções estéticas de seu tempo. É dessa estirpe de artistas - especificamente os compositores de vanguarda - que o último trata nesta coletânea de textos publicados ao longo de cinco décadas originalmente em jornais, revistas, enciclopédias e encartes de discos.
ReproduçãoProfilograma: Schoenberg (foto + desenho do compositor ilustrando a série dodecafônica e suas formas-espelho)O livro é a segunda publicação do autor na área de música. No final dos anos 60, ele lançou o estudo O Balanço da Bossa e outras Bossas, no qual discutia a música popular brasileira fazendo a defesa do movimento tropicalista. Na segunda edição deste volume, adiantava as questões desenvolvidas em seu mais recente trabalho abordando figuras chaves da música erudita contemporânea como Anton Webern e Charles Ives.
No papel de musicólogo, Augusto de Campos sai-se com desenvoltura escrevendo com clareza sobre um tema árido ao qual muitos sucumbem com jargão técnico especializado. ‘‘A audição qualificada não pode reduzir-se à música de entretenimento, por mais agradável e bem realizada que seja esta’’ - escreve ele, na introdução.
Reprodução‘‘Já é tempo de dar um tempo aos colchões sonoros da música palatável e aprender a ouvir aquela outra música, a música-pensamento dos grandes mestres e inventores, que impõe uma outra escuta, onde a reflexão, a concentração, a sensibilidade e a inteligência são ativadas ao extremo’’. Augusto, fundador da poesia concreta ao lado de Décio Pignatari e Haroldo de Campos, reuniu material iconográfico para acompanhar os textos incluindo fotos dos músicos enfocados, fotomontagens, trechos de partituras e até cartazes de concertos.
Música de Invenção é um livro de intervenção, didático no bom sentido num mercado editorial nulo em matéria de títulos sobre música de vanguarda. A primeira parte, intitulada ‘‘Palavra e Música’’, traz artigos sobre os trovadores provençais da Idade Média, as relações entre poetas (Gertrude Stein e Ezra Pound) e compositores (Virgil Thompson e George Antheil) e a obra do austríaco Arnold Schoenberg.
Na segunda seção, batizada ‘‘Radicais da Música’’, são enfocadas as trajetórias de Erik Satie, Walter Smetak, Anton Webern e Edgar Varese - os dois últimos definidos pelo autor como ‘‘aqueles, dentre os músicos, cuja obra mais se projeta no futuro’’. Para Augusto, por mais que a música popular tenha alcançado patamares de sofisticação, nada substitui a ambição estética dos modernos da tradição clássica.
Reprodução‘‘É preciso que as pessoas se conscientizem de que não saber ouvir a sua música é o mesmo que não saber ver um quadro de Picasso, ou de Klee, de Maliévitch ou de Mondrian, não acompanhar as aventuras escultóricas de Brancusi ou de Calder, ser incapaz de compreender as intervenções liberadoras de Duchamp, ou ignorar a poesia de Pound e de Cummings, a prosa antinormativa de Joyce ou de Oswald. É, em suma, privar-se de uma fonte preciosa e insubstituível de alimentação cultural’’.
A John Cage é concedido o espaço mais generoso do volume, que inclui inclusive uma entrevista com Augusto sobre a obra do artista norte-americano feita pelo crítico J. Jota de Moraes. Augusto lembra que o conceito de vanguarda sempre esteve vivo para o profeta do acaso e da indeterminação, que a definiu como ‘‘abertura e flexibilidade da mente, necessidade de invenção e liberdade de qualquer amarra institucional ou teórica’’.
Em seguida, já ao final do livro, o autor examina as criações de compositores contemporâneos ainda desconhecidos - ou conhecidos apenas pelos iniciados - na seção ‘‘Pós-Música’’. Aparecem aqui Giacinto Scelsi, Conlon Nancarrow, George Antheil, Luigi Nono, Galina Ivânovna Ustvólskaia e Henry Cowell. Desbravadores de fronteiras sonoras, eles são reverenciados por Augusto de Campos como precursores de uma nova estética. ‘‘A música, felizmente, é de novo um enigma. Sem nostalgia a não ser a do futuro’’ - proclama.
• Música de Invenção é um lançamento da editora Perspectiva. Está à venda a R$ 30,00.

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