Os personagens rurais foram os mais marcantes na trajetória de Vanessa Giácomo até agora. Por outro lado, por incrível que pareça, é justamente a revolucionária Malvina de ''Gabriela'', trama que se passa há quase 100 anos, seu papel mais contemporâneo na televisão. Na história, a menina não aceita as determinações da sociedade machista da época e nem as imposições feitas às mulheres, tratadas como meros objetos de seus maridos e suas famílias. E sofre as consequências de deixar essa posição bem clara em suas atitudes e discurso. ''Vejo ela como uma mulher de hoje em dia inserida ali, naquele contexto. E, pelo que ouço das pessoas, acho que essa é a visão que a maioria tem dela'', pontua.
Acostumada a atuar em remakes - ela estreou em ''Cabocla'' e marcou presença também em ''Sinhá Moça'' e ''Paraíso'' -, Vanessa fez questão de buscar material da primeira versão, quando Elizabeth Savalla desempenhou o mesmo papel. ''Não é legal olhar. Ainda mais quando grandes atores fizeram o personagem. Você fica com aquela referência na cabeça. Se deixa influenciar por aquela imagem, aquele jeito de fazer'', avalia.

Como tem sido a reação do público com a Malvina?
Nas ruas, todos sempre comentam que adoram a personagem, que ela representa bem a mulher revolucionária mesmo em uma época que esse público não viveu. As telespectadoras se identificam bastante porque o discurso dela é muito atual. E não é o caso de uma personagem que levanta bandeira à toa, ela sente tudo que diz. Sofre com a sociedade e os costumes daquele período. Por isso acho tão gostoso fazer esse tipo de personagem.
Você já declarou que sua avó serviu de inspiração. Por quê?
Minha avó era uma mulher muito forte, então acho que ela devia ser assim, como a Malvina. Foi uma mulher bem à frente do seu tempo e, com certeza, deve ter sofrido por conta disso. Ela sempre falava o que pensava para o meu avô. E a geração dela ainda era dessas mulheres que ficavam muito quietas, que passavam por cima das próprias vontades para fazer o que o marido achava prudente. Mas a minha avó, não. Meu avô era italiano, mas ela era impulsiva, dava bronca nos filhos, controlava as situações.
Que referências você buscou para compor a Malvina?
Eu li o livro, decidi focar mesmo em ''Gabriela, Cravo e Canela''. Depois, fui até Ilhéus e passei um tempo lá, por conta própria mesmo. Foi importante para me adaptar, sentir o ritmo da cidade e prestar atenção na prosódia. É claro que nos anos 1920 havia outro ritmo, mas dá para pegar um pouco do jeito do baiano, que já tem uma velocidade diferente. Tenho muitos amigos da Bahia também, o que me ajudou a encontrar o tom.
Você diz que viajou até a cidade por conta própria, para entender melhor a obra de Jorge Amado. Faria isso por qualquer personagem ou esse tinha algo diferente?
Bom, quando recebi o convite, vi que não era qualquer papel. A Malvina é uma personagem muito forte nessa história. E tem outro detalhe: é a minha primeira novela das 23 horas, nunca atuei nessa faixa de horário. O fato de ser uma adaptação de Jorge Amado já traz algo grandioso por trás dessa novela, então era importante me envolver, estudar a fundo e tentar entender a cabeça dele. Eu queria perceber como ele enxergava aquelas mulheres. ''Gabriela'' tem várias protagonistas e todas com personalidades fortes e diferentes. Além disso, não conhecia Ilhéus e tive curiosidade de ver como são aquelas pessoas. Olha, foi quase uma forma de pedir a bênção aos baianos.
Por que essa necessidade de pedir bênção?
É que quando você faz um sotaque em qualquer trabalho, existe uma reação dos moradores. Alguns reclamam de exageros, outros encaram que há um deboche ali. Há uma linha tênue que separa o ''fazer com verdade'' e o ''se preocupar mais com o sotaque do que com a essência do personagem''. Ao priorizar o sotaque, perde-se muito, a gente fica tão preso àquilo que deixa de ter atenção em outros detalhes. Claro que estudei o sotaque, pesquisei, mas uma vez que a melodia estava conhecida e entendida, pronto. Não ia ficar paranoica com aquilo.
Você grava muitas cenas apanhando. Como são feitas essas sequências?
Sempre tem gente da equipe de cenas de ação da emissora e de dublês que nos ajudam e ensinam a fazer. Se eu tomar um tapa do Chico Diaz, nossa, nem sei o que vai acontecer. Afinal, ele é um homem forte. Da Bel Kutner não tem problema, eu peço para dar de verdade. Mas com o Chico acho melhor ensaiar. Ainda não gravei a cena da grande surra descrita no livro, de quando o pai descobre que ela está com um homem que é casado e que, mesmo sabendo, ela continua. Essa, confesso, já estou me preparando psicologicamente para gravar. Mas esse detalhe é um diferencial bacana nesse trabalho, acho que me ajuda a fugir um pouco do que o público está acostumado a me ver fazendo.
''Gabriela'' é seu quarto remake na tevê, mas essa é a primeira vez que você interpreta um personagem que faz parte de uma adaptação literária em uma novela. De que forma isso influenciou seu trabalho?
Eu achei maravilhoso. Já tinha lido o livro, mas reli agora porque não lembrava de certos detalhes. O diferente é que a gente pode ver a história toda sem ficar com aquela imagem impressa na mente. Você embarca na viagem do autor. E a minha visão da Malvina é exatamente o que estou fazendo no ar. Acho muito chato ser feminista gratuitamente, radicalizar. Faço sentindo. Se aquela mulher sofre consequências do comportamento daquela sociedade, cabe a mim explorar isso e mostrar verdade. O Walcyr fez uma adaptação bem legal. Nem tem tantas referências assim da Malvina no livro e ele trabalha bem a personalidade dela.
Exceto uma participação nos primeiros capítulos de ''Duas Caras'', todas as suas personagens foram de época ou tipos rurais. Sente falta de viver uma personagem mais contemporânea e urbana?
Quando vejo personagens contemporâneos demais, sinto que pode faltar um tempero. Me assusta quando falam para mim sobre um papel muito parecido comigo. Será que vou saber fazer? Como vou criar esse ponto de distanciamento? Se é de época ou como agora, de um livro, fica mais fácil. Pode até ser igual a você, mas há detalhes que diferenciam. Personagens mais contemporâneos, aí eu não sei. Porém, ao mesmo tempo, vejo o trabalho do João Emanuel Carneiro, que não cria mocinhas que são só mocinhas e vilãs que fazem apenas maldades, e penso que pode ser interessante.

mockup