Há dez anos, quando fazia aulas de canto em São Paulo, a fotógrafa Vange Milliet conheceu Chico César. Era o começo de uma amizade que rendeu parcerias, shows e uma aproximação entre músicos como Zeca Baleiro, Paulo Le Petit e Itamar Assumpção, enquanto Milliet completava sua transição da fotografia para a música.
Toda essa convivência musical foi somada à busca de uma universalização sonora que mescla ritmos brasileiros adaptados a instrumentos como baixo, guitarra e bateria, mais recursos eletrônicos, como samplers e CD-ROMs. Somada à participação de músicos de primeiro time, como Paulo Le Petit, Edgard Scandurra, Bocato e Mané Silveira, entre outros, as características musicais de Vange Milliet afloram com qualidade em ‘‘Arrepiô’’, segundo disco da intérprete e compositora, lançado mês passado em duas apresentações no Sesc-Pompéia.
‘‘Arrepiô’’ é um apanhado que traz músicos da chamada ‘‘nova geração’’, como Chico César, Zeca Baleiro e Lenine, e de veteranos como Itamar Assumpção, Jards Macalé, Novos Baianos, Tom Zé, Gilberto Gil e Antonio Barros.
‘‘Na verdade minha escola é intuitiva, eu gosto e gravo. Há muita empatia com esse repertório’’, revela Milliet, em entrevista concedida por telefone à Folha. A música-título do álbum é uma parceria da cantora com Chico César: ‘‘O Chico pegou uma letra minha e fez a música, eu gostei e coloquei no disco.’’
A segunda faixa, ‘‘Salão de Beleza’’, de Zeca Baleiro, já fazia parte do repertório de shows de Vange Milliet. Em ‘‘Espelho’’, Baleiro divide a composição com a cantora: ‘‘Com o Zeca foi até engraçado, eu fiz a letra, ele fez um trecho da música, depois eu fiz outro, juntamos tudo e deu certo.’’
A parceria com Itamar Assumpção, que aparece em ‘‘Olho no Olho’’ e ‘‘Terra Brasilis’’ - feita a seis mãos com Paulo Le Petit - é mais recente. ‘‘Eu conheço o Itamar há bastante tempo, mas não tínhamos composto juntos. ‘Terra Brasilis’ foi feita para um filme que seria veiculado na TV francesa, nos pediram uma faixa que falasse de futebol. Nós iríamos interpretar ‘Fio Maravilha’, mas parece que o BenJ or não autorizou. Então o Itamar fez a letra e eu e o Paulo fizemos a melodia. A parte que falava de futebol foi só para o filme, no disco eu tirei’’, comenta.
A variedade musical apresentada no álbum também é resultado da diversidade dos recursos: ‘‘A gente buscou uma sonoridade que pudesse unir os instrumentos com o sampler. Nós trabalhamos com um CD-ROM com timbres do mundo inteiro, e é um desafio saber usá-lo com critérios, há muita banalização.’’
Vange Milliet destaca as participações no álbum e a proximidade entre elas. ‘‘Com o Itamar aprendi participando. Eu, o Chico e o Zeca Baleiro aprendemos juntos, é uma relação diferente da que tenho com o Itamar. Isso é muito prazeroso, dei sorte de trabalhar com gente do Brasil todo’’, acrescenta.
Apesar da diversificação das faixas, o álbum alcança homogeneidade na interpretação de Vange. ‘‘Eu sinto uma grande diferença entre o clima das músicas. Mas a gente buscou uma unidade de linguagem. O bacana é esse som plural, meio planetário, que resultou dessa mistura. Não gosto de bairrismos’’, revela.
Vange Milliet foi assistente do fotógrafo Bob Wolfenson e coordenadora do setor de fotografia do Masp. Mas a música falou mais alto e, além dos shows com Chico César, ela participou da Banda Isca de Polícia e Orquídeas do Brasil, ambas de Itamar Assumpção. Seu primeiro disco foi lançado em 1995, e Vange fez shows no Brasil e exterior.
Agora a compositora está empenhada em divulgar o novo trabalho, e se apresentar em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza, entre outros lugares. Ainda não há shows marcados na região Sul. ‘‘Devemos ir, mas ainda não temos uma data definida’’, explica. ‘‘Arrepiô’’ foi lançado pela Dabliú Discos, e tem distribuição nacional pela Eldorado.

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