Vange Leonel dedica peça a lésbicas
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segunda-feira, 19 de junho de 2000
Marcelo Rubens Paiva Agência Folha 
No teatro ou no cinema o homossexualismo é o tema da vez. Autores elegem personagens gays para conduzirem suas tramas, muitas delas salientando a discriminação e a intolerância que sofrem aqueles que têm a opção sexual pelo mesmo gênero.
Desta vez, sete personagens lésbicas estarão no palco do Centro Cultural São Paulo, para darem vida à peça As Sereias da Rive Gauche, da cantora e escritora Vange Leonel, 37.
Vange começou a carreira com a banda de rock Nau. Investiu numa careira solo, emplacando a música Noite Preta, em 91. Viveu uma superexposição e teve os conflitos de praxe com uma grande gravadora, que exigia um trabalho mais comercial e a desencorajava a assumir publicamente sua opção sexual.
Mas foi escrevendo uma coluna em uma revista voltada para o público gay e publicando o livro Lésbicas (Planet Gay Books) que ela amadureceu sua militância, seguindo os preceitos da luta para neutralizar o preconceito: orgulho e visibilidade.
Para homenagear (orgulho) e recuperar a história (visibilidade) de lésbicas notórias, como as escritoras Djuna Barnes (Almanaque das Senhoras), e Radclyffe Hall (O Poço da Solidão), Vange escreveu o espetáculo As Sereias da Rive Gauche.
A peça se passa em Paris, nos anos 20, em torno do grupo criado por Natalie Barney, uma rica americana confidente de Proust, que dava festas e organizava sarais em que iam Pound, Mata Hari, Gertrude Stein, Rodin e outros.
O fio condutor da peça é o romance entre duas mulheres, a censura, em 1928, do livro O Poço da Solidão e o andamento do julgamento de sua proibição.
A peça é dirigida por Regina Galdino, e o cenário é inspirado no movimento cubista. O figurino foi entregue a sete figurinistas brasileiros (Lino Villaventura, Lorenzo Merlino, Jeziel Moraes, Estela Alcântara, Raquel Centeno, Caio Gobbi e Mário Queirós), já que cada uma das personagens vestia roupas de diferentes figurinistas - Djuna Barnes vestia Chanel, por exemplo.
Confira, a seguir, trechos da entrevista com Vange Leonel.
O tema lesbianismo é recorrente em sua obra?
Desde os 16 anos, a família e os amigos sabem que sou lésbica. Resolvi assumir publicamente quando gravei um disco independente. Mas a gravadora achava que não valia à pena sair do armário. As pessoas têm medo de levantar bandeira; eu, não. Mas a militância não faz mais a minha cabeça. Quero usar o tema para o meu trabalho.
Existe um boom de peças e filmes que tratam desse assunto?
Existe uma espécie de reserva de mercado. Na TV, ainda não se pode beijar, a coisa é restrita. Está rolando mais o assunto, porque é a única maneira de acabar com o preconceito. Tem que mostrar que uma relação homossexual é tão banal quanto qualquer outra. É dos últimos bastiões a serem desenvolvidos, que esbarra na questão da moralidade. As igrejas barram a discussão, acusam os homossexuais de degenerados. Não existe uma tolerância para aceitar o diferente. O homossexual é retratado de maneira caricata. A sociedade em geral não conhece todas as nuanças.
A peça não corre o risco de ser vista como panfletária?
Tem uma cena da minha peça em que as personagens erguem um brinde a Platão, Safo, Maria Antonieta, supostos homossexuais e gênios. Mas uma delas diz: No caso da Maria Antonieta, gênio terrível. Na peça, há uma polifonia: umas personagens glorificam e outras acham uma bobagem glorificar. Procurei não colocar minha posição.
Por que mostrar uma história da década de 20, em Paris?
Queria muito mostrar as histórias dessas escritoras esquecidas. A Radclyffe Hall já era uma escritora de prestígio e resolveu escrever O Poço da Solidão, sobre o amor de duas mulheres. Até então, os homossexuais eram retratados como decadentes. Ela foi a primeira a apresentar um personagem moralmente digno e sólido. Em 28, apareceram seis livros sobre homossexualidade, inclusive Orlando. Paris viveu, na década de 20, uma época em que lésbicas circulavam de braços dados, davam beijos na boca.
Há mais tolerância no Brasil, hoje em dia?
O Brasil está mais tolerante. Há mais discussão, há muitos programas de TV. As pessoas se sentem mais informadas.
A militância no Brasil é diferente da dos EUA?
No Brasil, a gente se mistura muito, as pessoas são indefinidas e desorganizadas. Nos EUA, são mais atuantes. Mas os bissexuais sofrem por não fazerem parte de um grupo determinado. O termo GLS é bem brasileiro.
O espetáculo As Sereias da Rive Gauche fica em cartaz a partir de hoje até 20 de julho, de terça, quarta e quinta, às 21h30, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000, tel. 0/xx/11/3277-3611). Os ingressos custam R$ 12.


