Londrina, SP, 07 (AE) - Absurdamente bonito, denso e elaborado, o espetáculo "In Spite of Wishing and Wanting", criação do coreógrafo belga Wim Vandekeybus dançado por 12 bailarinos de sua companhia Última Vez, foi responsável pelo ponto alto da programação na primeira semana do Festival Internacional de Londrina (Filo).
Com trilha sonora de David Byrne e tendo como tema o desejo, investigado a partir de suas manifestações durante o sono, o espetáculo começa com uma forte e bela imagem de bailarinos/cavalos puro-sangue debatendo-se nas coxias/baias prontos para explodir em movimento, mas que não prescindem de rédeas e domador. A partir daí, a energia explode e ultrapassa os tradicionais domínios do palco em todas as direções.
Em sua concepção de explorar o lado obscuro da mente, Vandekeybus explora igualmente o espaço teatral, expõe coxias, urdimentos, ilumina o palco muito acima dos refletores, invade a platéia e mergulha verticalmente no palco, quando um bailarino rasga o linóleo e dança sob ele.
O coreógrafo mescla a linguagem teatral com a mais pura dança e ainda o cinema, por meio de um curta, "As Últimas Palavras", adaptado de dois contos de Julio Cortázar ("Cuento sin Moraleja" e "Acefalia"). Mas, apesar de sua paixão pelo cinema, é mesmo por meio da dança que Vandekeybus consegue os momentos mais belos e expressivos do espetáculo.
Releitura - Sem nenhum movimento banal, cria sequências de movimentos deslumbrantes, como numa coreografia com luzes e sombras ou numa releitura da dança dos dervixes girantes ou outra na qual os bailarinos tentam realizar o desejo de voar e parecem ter eliminado a necessidade de impulso para o salto. Não se trata de estética vazia, forma pela forma, mas de um espetáculo de grande força dramática. Daqueles que nos acompanham e voltam à mente por dias seguidos.
A estréia do espetáculo, uma co-produção belgo-italiana, foi em Ferrara, na Itália, no dia 12 de março. "Recebemos o convite há duas semanas e só pudemos vir porque, por sorte, a companhia estava em férias", disse ele. In Spite of Wishing and Wanting deve ser apresentado no Rio e em São Paulo, em setembro.
"Fomos convidados para um evento cultural que ocorreria em setembro no Equador, mas foi cancelado e talvez seja transferido para o Brasil, ainda não é certo." De Londrina, Vandekeybus volta à Bélgica para iniciar a criação de um novo espetáculo, mas seus bailarinos seguem de férias para Salvador, Bahia. Pouco antes da estréia em Londrina, ele falou sobre o espetáculo. AE - Qual é exatamente o tema de In Spite of Wishing and Wanting? O que o inspirou? Wim Vandekeybus - Em todos os meus trabalhos o título é importante. Em português, "Apesar de Querer e Desejar", soa contraditório, remete para algo que não se sabe bem o que é. O desejo é o tema do espetáculo, uma zona escura escondida no fundo da mente. O desejo é o motor do movimento desde o bebê buscando o seio da mãe para sobreviver até o homem que não aceita morrer. Desejos e medos são tema do espetáculo. Claro que é muito pretensioso querer falar de desejo com movimento. Por isso, o sono foi a primeira inspiração. Durante o sono vêm à tona desejos conscientes e inconscientes. O público então verá vários movimentos de homens dormindo, mas sempre movimentos, como se dormissem no ar, dormissem em pé. O sono desperta os desejos. AE - Usamos muito a expressão sonhar acordado. Seus bailarinos também desejam acordados? Vandekeybus - Claro que o desejo não será representado só no sono. Não é um coreografia individual, as pessoas desejam juntas e roubam o texto umas das outras, roubam o desejo das outras. O espetáculo tem uma energia muito intensa, os desejos vão sendo comprimidos numa bomba de energia que explode no fim. AE - Você trata da essência do desejo ou ele aparece de forma concreta no palco? São expressos desejos concretos? Vandekeybus - Às vezes, sim, mas de forma simples. A essência do desejo não pode ser apreendida com facilidade, mas pode ser entendida por meio do filme projetado no espetáculo, em duas partes. Na primeira, um homem vende gritos. Ele vende o grito de orgasmo de uma mulher, insultos de um briga, coisas assim, e os homens vão comprando porque desejam esses gritos. Então fica mais fácil entender os bailarinos roubando o texto uns dos outros. Na segunda parte do filme, um homem vende as últimas palavras para um rei tirano, que as compra e, obviamente, morre. O povo faz uma festa, mas até o vendedor sucumbe ao desejo de vender suas últimas palavras. É um filme irônico, sobre o desejo e a morte, na linguagem do realismo fantástico. As cabeças continuam falando depois de arrancadas do corpo e essa parte funciona como um sonho coletivo dos bailarinos. AE - Você trabalha também com texto? Vandekeybus - Mas o mais importante não é o significado das palavras, mas a atitude dos bailarinos ao dizê-las. É como um lutador de boxe que vocifera antes de uma luta e não importa o que ele diz, mas a forma como diz. Desta vez, trabalho só com homens, porque o desejo entre homem e mulher é muito usado na dança, já virou clichê. Isso foi importante, porque trabalho muito com toque, um bailarino levanta o outro e os homens não estão acostumados a ser amparados dessa forma. Isso nos fez tratar da fragilidade masculina, foi uma nova descoberta. No início, tudo ficava muito pesado, mas, aos poucos, os movimentos masculinos ganharam uma nova delicadeza. AE - Como se deu a parceria com David Byrne? Vandekeybus - Há muito queríamos trabalhar juntos e ele faria a música de um filme de ficção que eu estava preparando, mas o projeto foi cancelado, porque não consegui os direitos da história. A princípio, eu o convidei para compor umas pequenas inserções para o espetáculo - ele é um astro e já seria um honra contar com a sua colaboração -, mas ao ver um ensaio dos primeiros movimentos ele se entusiasmou e compôs a trilha inteira. E ainda gravou vozes, em Nova York e outras cidades, para colocar no fundo da música, criando uma atmosfera muito especial para um espetáculo que fala da venda de vozes. Depois, ele gravou um CD que estamos vendendo nos espetáculos e, em breve, estará nas lojas. AE - Em suas criações, preocupa-se com a comunicação com o público ou não é importante para você? Vandekeybus - Claro que é importante. Mas trabalho em vários países e existe a barreira do idioma, ainda mais nesse espetáculo que mistura italiano, escocês e inglês. Preocupo-me em fazer com que o gesto seja mais expressivo do que qualquer palavra. Há um momento em que eles se vão tornando cada vez mais rápidos e essa energia é o que passa para o público. AE - Já que você mistura tudo, pode-se dizer que o que faz é dança, teatro, cinema ou essas diferenças não fazem mais sentido? Vandekeybus - O ponto de partida do espetáculo é dramático, teatral. A dança integra o espetáculo. Quando surgem os movimentos, eles são muito fortes, intensos e não podem ser interrompidos, a linguagem é a dança. Mas eu gosto de romper limites. Trabalho com quatro atores e oito bailarinos. Os atores também dançam, os bailarinos também falam e o público não consegue distinguir uns dos outros. Há ainda um bailarino cego, Sa‹d Gharbi, que há cinco anos integra a companhia e o público também não o distinguirá. Não gosto de separações por categoria. Nos ensaios, estimulava a todos na criação de movimentos e palavras. AE- Seu método de trabalho é a improvisação sobre o tema? Vandekeybus - Não gosto da expressão, acho mal utilizada, dá a impressão de algo aleatório. Eu pedia, por exemplo, que os atores me mostrassem as posições em que dormem para criar movimentos e novas posições a partir delas. Para mim, é criação e não improvisação. Não trabalho com movimentos já codificados, como o balé clássico, que tem posições nominadas, pas-de-deux etc. Quero criar novos códigos e gosto quando o público estranha um movimento, não entende no primeiro momento e precisa decodificá-lo. Por outro lado, crio coreografias há 12 anos e claro que já tenho meus códigos. Poderia escrever um livro de códigos se quisesse. Mas procuro sempre descobrir novas chaves para o movimento. AE - O bailarino cego precisa de marcas diferentes dos outros no palco? Vandekeybus - Quando fiz meu primeiro espetáculo com cegos, utilizei uma corda no palco, que marcava os limites dos movimentos. Depois de cinco anos dançando, as marcações do Sa‹d são muito sutis, imperceptíveis para o público. São vozes, alguns ruídos dos outros bailarinos, toques, corpos. Claro que há uma atenção especial dos outros bailarinos sobre ele e isso é muito importante para o trabalho do grupo. Ele é um elemento aglutinador, a preocupação em protegê-lo intensifica a concentração. AE - Há muito você vem querendo criar um longa de ficção. Você era fotógrafo, passou a coreografar, o que não deixa de ser um trabalho sobre imagens e cria filmes para vários de seus espetáculos e agora planeja fazer um longa-metragem de ficção. No fundo, seu desejo não é mesmo o cinema e a dança foi só um desvio? Vandekeybus - Talvez. No momento, uso a estrutura do teatro para fazer meus filmes, mas um longa-metragem não pode ser feito dessa forma. Tenho algumas idéias em mente e espero afastar-me em dois anos. Vou dar-me um ano para fazer o longa. Agora, vou começar a trabalhar uma nova coreografia para estrear em abril e outra para junho. Mas o fotógrafo é como um câmera e para fazer um filme é importante saber controlar todo o processo de criação. Na companhia, acompanho todo o processo de criação e sei dizer não aos primeiros desenhos de figurinos ou dizer não dez vezes para um sugestão de ator e aprovar a décima primeira. A criação de um espetáculo é um processo coletivo, tem a contribuição de todos os envolvidos, mas é importante saber comandá-los. AE - Por que sua companhia se chama Última Vez? Vandekeybus - Em 1986, fui à Espanha para um workshop com mais 15 bailarinos. A programação do evento exigia que o grupo tivesse um nome e eu estava tão arrependido de aceitar o trabalho que disse a mim mesmo que era a última vez. No mesmo ano fundei a companhia.

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