Vampirella à solta
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de agosto de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Você queria ser mordido por ela? Vampirella, a vampira mais sexy das histórias em quadrinhos, está de volta às livrarias coincidindo com a invasão de chupas-sangue na nova novela da Globo.
Gerações de marmanjos já ''passaram mal'' com a personagem. Alguns nem se importam com a trama de suas aventuras, desde que as ilustrações realcem as curvas de sua silhueta sob o inseparável maiô vermelho. Em ''Vampirella Vive'', lançamento da Devir em parceria com a Devir de Portugal, os desenhistas Jimmy Palmiotti e Amanda Conner não decepcionam os fãs.
Com roteiro de Warren Ellis, o álbum chega ao Brasil mostrando a nova encarnação da heroína após ser assassinada por Dama Nyx, a filha do Caos. No retorno, ela enfrenta uma vasta conspiração de vampiros liderada pelo filho mais velho de Lilith. A história é ambientada na pequena cidade de Whitechapel EUA), onde as ruas são inclinadas para permitir o escoamento de sangue dos habitantes assassinados.
No exterior, a aventura foi publicada separadamente numa minissérie de três números. A edição, de luxo, inclui um apêndice contando as origens das mitologias em torno das criaturas que bebem sangue. O texto introduz o leitor ao universo de Vampirella recriado na década de 90, quando ela descobre que é filha de Lilith, a primeira mulher de Adão no jardim do Éden.
Lilith teria sido expulsa do paraíso como castigo por não ter se sujeitado a seu marido opressor. De lá, partiu para o inferno onde teria fornicado com demônios, gerado vários filhos e mandado todos ao mundo para atormentar os homens. Milênios depois, ela procurou se redimir dos pecados dando nova vida a Vampirella sua filha predileta , incumbindo-a de eliminar os irmãos demoníacos e colocar um fim ao seu reinado maligno sobre a Terra.
A filha tenta cumprir a missão sugando sangue apenas dos maus, o que revela senso ético no mundo das criaturas da noite. Em ''Vampirella Vive'', ela sai à caça dos vampiros ameaçadores tendo que combater ainda Hemorragia, o amante de Dama Nyx que mata as pessoas com a força da mente empurrando o sangue alheio contra as paredes do estômago. Nesta saga, a heroína usa o recurso do vilão a seu favor. Até 1994, porém, as aventuras da personagem partiam de outra versão para sua origem.
Quando estreou em revista, em 1969, Vampirella fora concebida como uma super-heroína vinda do planeta Drakulon e que precisava de sangue para sobreviver uma combinação de Supermoça, Barbarella e Drácula. Em Drakulon, os rios eram de sangue, o alimento básico de seus habitantes. Quando os rios secaram, a população do planeta morreu.
Vampirella só conseguiu sobreviver porque veio para a Terra, onde começou a chupar sangue humano. Sua aparição nos gibis, com roteiro de Forrest J. e desenhos de Frank Frazetta, foi arrebatadora. Ela surgia com longos cabelos escuros, franjinha na testa, lábios voluptuosos, quadris largos e pernas para enlouquecer moleques de todas as idades.
Já então trajava o maiô vermelho que mal lhe cobria os seios fartos, as botas pretas de cano alto, bracelete no braço direito e algumas pulseiras no braço esquerdo. A combinação de apelo sexual, agressividade e inocência transformou a personagem na mais popular da Warren. O nome foi inspirado em ''Barbarella'', um filme com Jane Fonda que fazia bastante sucesso na época.
A lista de roteiristas que assinaram suas primeiras histórias inclui nomes como Archie Goodwin, Bill DuBay, Budd Lewis, Chad Archer e Flaxman Lowe. Entre os ilustradores figuram craques como Tom Sutton, Gonzalo Mayo, José Ortiz, Rudy Nebres e Jose Gonzalez. Nesta primeira fase, Vampirella enfrentou a seita do Caos, que pretendia abrir as portas da Terra para Satã e destruir a humanidade.
Na época, o editor James Warren conseguiu driblar o ''código de ética'' que proibia beijos e sangue nos gibis. Esperto, decidiu publicar as histórias num formato maior, passando ao largo da censura. Argumentava que as publicações não eram comic books (os gibis norte-americanos), mas revistas. Com a malandragem, seus lançamentos foram os únicos títulos de HQs de horror a circular livremente no mercado americano durante toda a década de 70.
Na Warren, Vampirella saiu de setembro de 1969 a março de 1983, quando a editora entrou em falência. A personagem só retornaria às prateleiras 5 anos depois chancelada pela Harris Publications. Ao longo da década de 90, diversas antologias regastaram as melhores histórias da heroína, que conheceria sua nova origem nas páginas da revista ''Vengeance of Vampirella'' (1994-1996).
Alan Moore, Grant Morrison e Kurt Busiek foram alguns dos roteiristas contratados para levar adiante a saga da vamp nesta segunda fase. Desenhistas como Jim Balent, Joe Jusko e Chris Batista também impuseram seus traços sobre a personagem. Recentemente, Vampirella apareceu em alguns crossovers e até virou mangá.
No Brasil, o público conheceu a heroína de papel nos anos 70 através da editora Cultos. Depois, ganhou mais dez revistas e dois especiais publicados pela Noblet, além de um número lançado pela RGE ''Cripta apresenta Vampirella''. Na última década, títulos esporádicos chegaram aos leitores pelas editoras Metal Pesado, Tudo-em-quadrinhos e a Atitude.
Ao longo da trajetória da personagem, muito se especulou sobre a possibilidade de levar a heroína às telas. A primeira tentativa, em 1975, teria Barbara Leigh no papel principal e Peter Cushing encarnando Pendragon. Mas o roteiro nunca foi filmado. Roger Corman, o lendário produtor de filmes B, chegou a rodar um filme há poucos anos escalando o diretor Jim Wynorski, a atriz Talisa Soto (como protagonista), o vocalista da banda de rock The Who Roger Daltrey (intepretando Drácula) e Richard Joseph Paul no papel de Adam Van Helsing. O próprio Ackerman, criador da vamp, aparecia como figurante numa cena no interior de um cassino. A criatura resiste.
Serviço: Álbum de luxo ''Vampirella Vive''. Roteriro de Warren Elis e desenhos de Amanda Conner e Jimmy Palmiotti. Lançamento: Editora Devir (www.devir.com.br). Preço: R$ 22,50.


