Valorogia, a arte de se guiar pela correção
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sábado, 13 de abril de 2019
Domingos Pellegrini 
Parece que as ideologias de esquerda e direita dividiram o país, mas não, a maioria dos brasileiros, honestos e trabalhadores, continuam avessos a ideologias, e, porque trabalham muito, tem pouco tempo e ânimo para ideologias. Mas essa maioria silenciosa também se guia por um sistema, porém não de ideias mas de valores:
Honestidade – que os desonestos não sabem como é bom. A honestidade crê que menos desonestidade haverá quanto mais gente for criada assim desde criança.
Produtividade – ou trabalho bem feito, trocando o mais ou menos pelo melhor, a preguiça pelo prazo, o custo alto pela alta qualidade. Na Capital do Café a cafeicultura reinou e decaiu por baixa produtividade. Tecnologias e inovações, tão faladas ultimamente, são só ferramentas para a produtividade.
Liberdade – sempre com responsabilidade. Se alguém com cartaz no peito grita na praça, é liberdade de expressão. Se porém grita no teu ouvido, é importunação. Liberdade requer sensibilidade do portador.
Fraternidade – sem porém paternalismo nem coitadismo. Com direitos assegurados para todos, sem entretanto privilégios. Por exemplo, salário igual para homens e mulheres é não só direito como também condição essencial de fraternidade. Mas apregoar, por exemplo, que “todo preso preto é preso político”, é insanidade.
Qualidade – de produtos, de serviços, de comportamento. Em Gramado, as ruas brilhando decoradas, as lojas cheias, no sanitário da praça o turista depara com limpeza brilhante e flagrância no ar! Ali já se vê porque é a cidade que mais ganha com turismo no país.
Claridade – ou transparência, chave da vigilância e participação popular. Ainda convivemos com governos e estatais de pouca claridade, mas o lema da República é Ordem e Progresso, e a História mostra que se pode gastar muito tempo contrariando isso, mas para haver progresso tem de existir claramente ordem.
Criatividade – o diferencial da Humanidade, ou ainda estaríamos vivendo em cavernas. Os idosos de hoje viveram num mundo onde era precisar esperar até dias por um interurbano, mas ainda poderão ter carros sem motorista e saúde cuidada por um chip. Nosso futuro é sempre filho do trabalho com a criatividade.
Espiritualidade – ou a crença de que, mesmo que não haja outra vida, ou mesmo que a existência novamente seja absolutamente inexplicável numa nova vida, vivemos não apenas para viver, mas para agradecer pela vida e criar crenças consoladoras.
Verdade – com visão para os fatos em vez das narrativas. Ou, conforme Cazuza, que as ideias correspondam aos fatos.
Diversidade – já que igualdade vale apenas para direitos e deveres. De resto, somos a espécie mas diversificada em raças, condições, sexos, vocações, crenças e ideologias, estas com a prepotência de querer explicar todas as causas e para tudo ter soluções. A valorogia, porém, apenas aponta esteios para civilização.
Humildade – pois essa maioria não espera impor seus valores a ninguém, embora os defenda. A resignação se omite, a humildade serve. Mas, se os humildes não querem fazer História, também não querem nem merecem sofrer a História, apenas esperando trabalhar e viver sem ter de custear tanta incompetência e ganância das ideologias no poder.
A grande divisão no país parece ser não entre direita e esquerda, mas entre os que querem o poder, guiados por ideologias, e os que apenas querem “não sair da linha” ou “fazer o certo”, como se diz, servindo bem sua família e sua comunidade e, assim, a nação. Ou caminhar nem para a esquerda nem para direita, e sim em frente, guiados por essa velha e sempre renovada valorologia.


