Em "Valor Sentimental", em lançamento nesta quinta (8), em Londrina, o diretor norueguês Joachim Trier revisita temas essenciais em sua filmografia, infelizmente pouco conhecida do espectador londrinense: a complexidade das relações familiares, especialmente entre pais e filhos, e as diversas maneiras pelas quais a passagem do tempo e a memória nos afetam. Neste caso, ele explora esses temas através do reencontro de duas irmãs adultas, uma delas atriz (Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas), com seu pai distante (Stellan Skarsgard), cineasta septuagenário que depois de dez anos inativo prepara novo filme, um documentário, em uma indústria cujas novas regras ele não compreende.

"Valor Sentimental", do diretor norueguês Joachim Trier, traz a complexidade das relações familiares e mostra como as memórias nos afetam
"Valor Sentimental", do diretor norueguês Joachim Trier, traz a complexidade das relações familiares e mostra como as memórias nos afetam | Foto: Divulgação

No centro da história e das imagens está a casa da família, agora à venda, vestígio e testemunha do legado da família Borg. Heranças sentimentais que se traduzem num vaso de vidro colorido, mas também em carências emocionais, um vazio interior representado aqui pelo design minimalista dos móveis e pelas paredes claras, desprovidas de fotografias de família, como se a funcionalidade da sobrevivência tivesse deixado o coração órfão de elementos supérfluos, nos quais, em última análise, reside o que é importante, o que é memorável. Tanto cenário quanto refúgio para tudo: os afetos, as separações, as ausências e a falta de comunicação dessa familia. O eco surdo é apenas dos gritos e sussurros e dores à maneira bergmaniana. A influência do grande diretor sueco no cinema internacional, especialmente em seus vizinhos nórdicos, é inegável. O patriarca do argumento é vivido por Stellan Skarsgard, compatriota de Bergman, como embaixador daquela terra. Não há como negar o caráter meta-narrativo ao filme.

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Ficção e realidade se alimentam mutuamente, confundindo-se e tornando-se indistinguíveis. As pessoas interpretam personagens que, por sua vez, são nutridas por outras pessoas que elas foram um dia. Porque Rachel Kemp (Elle Fanning, que ilumina qualquer papel) também aparece na casa com Gustav – uma famosa atriz americana, muito mais famosa que Nora, admiradora de Gustav e aquela que substituirá Nora como protagonista no filme que eles querem filmar dentro do filme. Significante, significado e referente em uma constante dança a três.

PREMIADO EM CANNES

Em “Valor Sentimental”, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Trier fala da arte como uma forma de comunicação; aliás, como uma forma de comunicação do inefável. Como uma maneira de representar aquilo que não ousamos dizer, como uma forma de ordenar o subconsciente, como uma expressão de algo tão universalmente compartilhado quanto abstrato, algo que muitas vezes podemos sentir nessa busca por um significado vital inerente a cada ser humano.

O diretor – juntamente com seu corroteirista Eskil Vogt – molda personagens repletos de nuances e contradições, que condensam suas decepções em um simples olhar. Atores gigantes em gestos mínimos, como aquele olhar de Gustav, ou melhor, de Stellan Skarsgard, que lhe empresta seus olhos – quando ele percebe que a atriz escolhida não entende o filme ou sua personagem.

Um filme com raízes corais – cada um dos quatro personagens principais oferece sua própria perspectiva –, “Valor Sentimental” dedica um bom tempo às mudanças que Gustav Borg é forçado a fazer em sua criação: com a nova atriz no elenco, a produção passa para as mãos de uma famosa plataforma global cujo nome começa com N e termina com X. Há humor em diversas passagens do filme (os presentes de Gustav para seu neto são certamente inadequados!), e Joachim Trier consegue evitar que os momentos mais densos se tornem excessivamente dramáticos. É esse equilíbrio que prende a atenção do espectador por mais de duas horas em um filme que, sem ser exageradamente dramático, reflete sobre sua própria criação e ambições. A cena final confirma que o cinema, em seu, em seu artifício, também pode ser uma imitação da vida. E creio que aqui cabe aqui um arremate: é um filme que precisa que você se deixe levar, abraçando e celebrando as incertezas e tudo aquilo que nunca sai como planejado. E ainda bem que é assim.

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