Assistir aos capítulos de "Pecado Mortal" é uma experiência surpreendente. Logo à primeira vista, é possível notar que o alto investimento da Record na novela foi bem aplicado. Com um custo de R$ 500 mil por capítulo, o folhetim de Carlos Lombardi apresenta uma fotografia solar pensada nos mínimos detalhes. Além de uma história instigante, capaz de capturar a atenção por sua maneira ágil de ser desenvolvida. Um grande acerto para a dramaturgia da emissora.
O esmero é perceptível desde o prólogo, que se passa nos anos 1940. Desta vez com um ar predominantemente soturno, os 18 minutos iniciais mostraram bem o perfil dos personagens principais que carregarão a trama central até os últimos capítulos. Logo em seguida, há uma mudança significativa no clima com a chegada dos anos 1970. É quando entram em cena figurinos com estampas florais e calças bocas de sino. E ainda carros comuns da época, como Brasília, Corcel e Chevette, entre outros. Tudo embalado por uma trilha condizente com a década. As equipes de caracterização, cenografia e direção de arte não poderiam estar mais afinadas.
As sequências de ação são predominantes, principalmente as de luta. Mas as coreografias de briga, que poderiam soar fora do tom e até falsas, na verdade, apresentam um resultado bastante natural no ar. E a história acompanha o ritmo frenético tão comum nas obras de Carlos Lombardi. A diferença é que, em "Pecado Mortal", o autor aproveita para explorar mais o melodrama. E também consegue pincelar em todos os personagens sua típica ironia.
Nem a patrulha do politicamente correto que tomou conta das telenovelas parece causar qualquer influência em Lombardi, que capricha em suas "tiradas" nada ortodoxas. O resultado no ar é uma novela ágil, interessante e inovadora.
A direção, sob o comando de Alexandre Avancini, não fica para trás. Tanto em relação à imagem – muito mais próxima à do cinema por conta das câmaras Arri Alexa utilizadas – como na direção do elenco.
De uma maneira geral, os atores estão entrosados em cena. Simone Spoladore e Fernando Pavão, na pele de Patrícia e Carlão, encontraram o tom do casal que representa muito mais um amor carnal do que romântico, algo também já explorado em outras tramas do autor, como "Quatro por Quatro".
Carlos Lombardi marca sua estreia na nova emissora em grande estilo. Mesmo depois de sete anos sem lançar um folhetim, ele se mantém fiel à sua assinatura – com direito a "descamisados" a cada dois minutos – que o consagrou. Depois de folhetins de menor repercussão, como "Máscaras" e "Balacobaco", a teledramaturgia da Record volta a dar sinais de vida. Tanto que a Globo – principal concorrente na área e onde Lombardi trabalhou durante cerca de 30 anos – já sentiu os efeitos: "Amor à Vida" tem terminado bem mais tarde que o de costume – quase às 23h em alguns dias da semana.

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