Agência Folha
O IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), em parceria com a Edusp, está lançando o volume completo da correspondência entre os poetas modernistas Mário de Andrade (1893-1945) e Manuel Bandeira (1886-1968). As cartas foram trocadas entre 1922, ano da Semana de Arte Moderna, e 1944, ano anterior à morte de Mário.
A recuperação do diálogo entre os dois é bastante reveladora, principalmente quanto às opiniões e ao estilo de Bandeira, uma vez que as cartas de Mário já haviam sido publicadas. As cartas que recebera, porém, Mário determinou que, após a sua morte, ficassem lacradas durante 50 anos.
Agora é possível acompanhar, em sequência, o conjunto de missivas e suas respostas, como uma saborosa conversa entre dois amigos e companheiros de escrita. O tempero desse diálogo começa na maneira como os dois abrem e fecham suas cartas. A gradação vai do formalismo do início (‘‘Caro Mário, um abraço do Manuel’’), passando por momentos de descontração (‘‘Manuelucho dear’’, ‘‘Ciao, Maneco’’), para alcançar a intimidade de bons amigos (‘‘Mano Mário, um abraço do Manu’’).
Assim como o largo período de tempo da troca de correspondência, o conteúdo das cartas também é amplo. São muitos os assuntos: discussões sobre criação e defesa de uma ‘‘língua brasileira’’ e dos rumos do modernismo, queixas da superficialidade das rodas sociais, comentários sobre os prazeres e as farpas do convívio literário e artístico e relatos do trivial cotidiano, paulistano de um, carioca de outro.
Mário se queixa da pobreza, mas diz que não se arrepende de ter tirado dinheiro do próprio bolso para financiar um número da revista Klaxon. Bandeira compõe descrições pormenorizadas de sua geografia pessoal: o Capibaribe das rápidas viagens a Recife e, no Rio, a rua do Curvelo (em Santa Teresa, onde o poeta morou) e os prostíbulos da Lapa.
Mas a fase mais interessante da correspondência é a que registra a gênese das principais obras dos dois autores. Entre 1926 e 1930, especialmente, Mário e Bandeira trocam impressões, conselhos, sugerem ajustes e discutem mudanças nas obras de cada um.
Um ano antes da publicação de ‘‘Macunaíma’’ (1928), os dois debatem as qualidades do livro de Mário. Escreve este: ‘‘Estou passando a limpo o ‘Macunaíma’. Acho que é a coisa mais ‘deroutante’ que fiz até agora, esse sim é que vai dar besteira em letras de forma.’’ Deroutante (desconcertante) foi o mínimo que Bandeira achou do livro. Duas cartas adiante, no mesmo outubro de 1927, ele escreve ao amigo: ‘‘‘Macunaíma’ chegou e eu gostei dele. Eu estava de pé atrás com o herói.’’ Os dois divergem quanto ao capítulo ‘‘Ci, Mãe do Mato’’, que Bandeira acha ‘‘descosido’’ e Mário considera o melhor do livro.
No mesmo ano de 1927, Bandeira envia a Mário alguns poemas, ‘‘Profundamente’’ e ‘‘Lagarta Listada’’. Ambos seriam incluídos, com modificações, em ‘‘Libertinagem’’ (1930), o segundo com o nome de ‘‘Namorados’’. O ano de 1929 começa com uma troca de idéias a respeito do título do livro de Bandeira. Mário tem algumas sugestões (‘‘Redondo, Sinhᒒ, ‘‘Mineiro Pau’’, ‘‘Verso Maneiro’’), todas recusadas por Bandeira, que responde: ‘‘Libertinagem é dúbio, é triste, é geral, é breve, é bonito.’’
São apenas alguns exemplos do diálogo literário de Mário e Bandeira. Há, de resto, muito pano para manga nessa ‘‘Correspondência’’. Cada carta encerra preciosidades de valor documental e histórico, mas também estético. Ainda mais agora que, com o predomínio da troca de e-mails, a carta enquanto gênero literário tende a desaparecer.
O IEB prepara ainda o lançamento de outros livros com a correspondência completa do autor de ‘‘Paulicéia Desvairada’’. Entre os próximos volumes estão ‘‘Mário de Andrade e Tarsila do Amaral’’, ‘‘Mário de Andrade e Sérgio Milliet’’ e ‘‘Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda’’.

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