Tem certas combinações que são perfeitas. Café com leite, cinema com pipoca, sol e mar. É assim também em ''Canção da Espera'', um CD feito com a voz de Jane Duboc e músicas de Egberto Gismonti. Dois talentos que, juntos, transformam canções em pura emoção. São 12 momentos para se derramar em lágrimas, lembranças e risos; para ouvir mais uma vez, dando vez à razão, apreciando técnica, criatividade e execução.
O CD é um velho sonho de Jane, que desde 71, quando trabalhou com Gismonti pela primeira vez no show ''Água e Vinho'', sempre quis gravar um disco só com músicas dele. ''As melodias e harmonias que esse homem cria conseguem agradar todo mundo, gente de todas as idades e nacionalidades. São bordados feitos à mão'', explica.
Talvez o mais difícil tenha sido selecionar o repertório. Gismonti mandou para Jane uma relação de 60 músicas. ''Algumas eu já tinha escolhido. Por exemplo, a 'Canção da Espera' foi feita para Camila Amado, uma grande atriz. A primeira vez que eu ouvi foi um impacto tão grande, aquilo falou à minha alma. Eu disse: essa vai ser a primeira música do CD.''
A própria Jane cuidou de toda a produção. ''Foi uma força misteriosa de energia, foi vindo tudo pronto na minha cabeça. Por exemplo, eu sabia que iria usar só piano, para que as letras aparecessem bastante'', explica. A tarefa de colocar palavras na música de Gismonti e na boca de Jane ficou para o compositor Geraldo Carneiro, em 10 das 12 canções. Naturalmente, já que Carneiro é um velho amigo e um dos parceiros mais constantes da carreira de Gismonti. Paulo César Pinheiro fez a letra de ''Saudações'' e João Carlos Pádua, ''Mais do que a Paixão''.
''Esse CD me deixou tão feliz, foi tão gostoso de fazer. Nós gravamos tudo ao vivo, a pulsação é bem real'', aponta Jane. As exceções foram para as participações especiais, com Olívia Byington (''Sanfona''), o amigo Peri Ribeiro (''Janela de Ouro'') e o filho, Jay Vaquer (''Ano Zero''). Gravar com o filho foi mais uma emoção: ''Quando ele começou a cantar José despertou com a noite... eu chorei'', confessa.
O disco inteiro é feito de encontros felizes e histórias extraordinárias. Até a capa. ''Meu pai estava doente, no hospital, e num dia em que ele melhorou eu resolvi fazer a capa. Chamei o Luiz Braga, fotógrafo, comprei um vestido na esquina, passei um batom, deixei o cabelo secar ao vento e fomos para Mosquera, um balneário bem bucólico, perto de Belém. A primeira foto que fizemos, ele me disse: é essa. E foi mesmo'', lembra.
A emoção, no entanto, não tomou o lugar da cantora experiente, da intérprete meticulosa e perfeccionista. Jane produziu o CD com ajuda de três arranjadores escolhidos a dedo: Gilson Peranzzetta, Fernando Merlino e Lula Galvão. Convidou Hamilton de Holanda para tocar bandolin, chamou João Cortês para a bateria, Zeca Assumpção e Jorge Hélder no baixo, Pantico Rocha na percussão, Mauro Senise nas flautas e sax e Hugo Pilger no cello, além do Quarteto Bessler. ''Fiz questão de colocar a mixagem bem perto, não gosto de botar a voz lá na frente, acho que tem que haver uma harmonia entre voz e instrumentos'', indica.
Finalmente, a prova de fogo. ''Eu estava muito preocupada com o que o Gismonti iria achar do CD... Quando ficou tudo pronto, levei para a casa dele. Ele sentou para ouvir. Eu estava com o coração na mão, e então fui vendo o sorrisão, o brilho nos olhos dele. Quando tocou 'Ano Zero', ele se levantou, olhou para mim e eu soube que estava tudo bem'', confessa. Gismonti fez questão de ligar para cada um dos músicos envolvidos e agradecer pessoalmente.
A afinação perfeita e o timbre sofisticado de Jane Duboc não ''entregam'' a personalidade brincalhona e amorosa da compositora. Espontânea, simples e falando sempre aos risos, Jane vai transformando a entrevista em uma conversa amigável e divertida. ''Nesses últimos tempos eu ando rindo muito. Tem que ser assim, a gente está aqui num breve sopro, não se pode levar as coisas muito a sério, é preciso saber sentar, olhar para o céu enorme e perceber como somos pequenos'', ensina. De repente, é possível ver escondida nessa mulher uma adolescente que sempre adorou a sensação de liberdade: ''Quando a gente morava em Belém, eu tinha um jipe chamado Mutuca. Nós saíamos nele, sem rumo, sem horário, sem destino'', relembra, rindo. Também dá para acreditar que Jane já foi tricampeã de atletismo. Aliás, o primeiro grupo musical que ela criou se chamava ''Quarteto do Tri''.
Em 36 anos de carreira Jane construiu uma artista completa. Seu fã-clube conseguiu catalogar mais de 100 discos com a participação dela, que já gravou de Hermeto Paschoal a Sarah Vaughan, trilhas de novelas, músicas para festivais, jingles, e ainda escreve poesias e livros infantis. Em fevereiro, ela vai fazer um show que vai virar um DVD; enquanto isso, está acabando um novo CD para homenagear sua cantora preferida: Ella Fitzgerald.
Por aqui, os fãs garantem que só falta nesse currículo uma passagem por Londrina. ''Ah, eu adoro essa região. Já estive aí, há muitos anos, com o 'Projeto Pixinguinha', mas eu volto. Qualquer hora, eu volto'', garante. Até lá, a gente ouve a ''Canção da Espera''.

SERVIÇO
- Canção da Espera
Cantora - Jane Duboc
Gravadora - Biscoito Fino

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