Valei-nos, Nossa Senhora!!
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de outubro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Chovia pra caramba. Era 7 de setembro deste ano. Uma segunda-feira. O local, Praça Sete de Setembro, em Londrina. Exatamente às 11 horas, a dupla Thallys e Aldriã começava a pagar uma promessa: ir a pé de Londrina à cidade de Aparecida do Norte (SP), numa distância de pelo menos 800 quilômetros e depositar, aos pés de Nossa Senhora Aparecida, o primeiro disco gravado por eles, no ano passado. Um detalhe: a promessa foi feita pelo pai, Seo Marins, o Miro, que em nome da devoção rogou à Santa para que ajudasse a carreira artística dos seus meninos a deslanchar. CD gravado, público mais ou menos conquistado, era a hora de ir agradecer à padroeira do Brasil.
Arquivo PessoalA dupla percorreu cerca de 800 quilômetros até AparecidaForam 19 dias de viagem. Uma média de 38 quilômetros/dia. Chegaram ao destino fustigados, com quatro quilos a menos, cada um, os pés em pandarecos. Até chegar lá foram acumulando muitas histórias recheadas de solidariedade, um pouco de fome, e, claro, muitos personagens - pastor, locutores, mendiga, um certo João Pacífico que ensinou uma receita de Viagra brasileiro, entre outros.
Tudo, mas tudo mesmo foi anotado num caderno que se transformou numa espécie de diário de viagem. Valeu a pena porque a Santa já havia feito a parte dela que foi ajudar a gente a gravar nosso CD- diz Thallys. Pagamos em agradecimento e também porque com promessa não se brinca. Vai que as coisas começassem a desandar- diz Aldriã.
Vamos por etapa. Antes de saírem de Londrina (levando apenas uma mochila, um violão e água), uma passada na Catedral para rezar. Tênis nos pés, nenhum tostão no bolso. Com a viagem toda desenhada na cabeça - a idéia inicial era caminhar 31 quilômetros por dia e chegar a Aparecida em 27 dias - os irmãos enfiaram o pé na estrada.
Thallys e Aldriã contaram com o auxílio providencial de duas pessoas importantíssimas que chegavam com antecedência, de carro, às cidades onde parariam - o amigo Papagaio e o irmão da dupla, Jânio. Cuja incumbência era ir às emissoras de rádio informar o fato e, de quebra, tentar, através dos ouvintes, hospedagem e comida por um dia em troca de cantoria. E também socorrer a dupla em algum caso de emergência.
A primeira parada foi em Uraí, às 19h30. Quase 40 quilômetros. Conseguiram hospedagem num hotel. Dia seguinte, pé na estrada. A parada, Cornélio Procópio. Concederam entrevistas, cantaram, dormiram e... No segundo dia o corpo doía todo- conta Aldriã. E assim foram caminhando e chamando a atenção das pessoas por onde passavam.
Chuva e sol, sol e chuva e muita estrada pela frente. Sétimo dia de viagem, a primeira decepção. Apesar de terem conseguido jantar num Posto de Combustível, entre Piraju e Itapetininga, Thallys e Aldriã só conseguiram hospedagem numa casa abandonada. Que já abrigava uma mendiga. Só havia uma cama com estrado e cobrimos com uma monte de propaganda de política para poder dormir. Pelo menos esses políticos serviram para alguma coisa- brinca Aldriã.
Dois dias depois, a dupla chegou a um posto de Combustível em Paranapanema. Através de uma entrevista numa rádio, ganharam a simpatia de um pastor, de nome Samuel, que os hospedou e não questionou a empreitada. E até encontrou um dentista para arrumar um dente quebrado de Aldriã.
Outro personagem que Thallys e Aldriã conheceram foi uma locutora, Raimunda, que mantém um programa sentimental chamado Recados do Coração, numa rádio de um distrito de Itapetinininga. Que não só acolheu a dupla como hospedou em seu chalé muito confortável.
E assim a coisa foi indo. Até que os irmãos finalmente chegaram a Aparecida. Eram 18h10. Chovia muito. Entraram na belíssima basílica. Mas não conseguiram pagar a promessa naquele dia porque a Sala das Promessas estava fechada. Ficou para o dia seguinte. Deixaram o CD, assistiram à missa. Emocionaram-se. Voltaram a Londrina. De Carro. Abatidos, mas com a sensação de dever cumprido. Estão, em outras palavras, em dia com Nossa Senhora.


