Cada vez mais, a televisão dita as regras do esporte brasileiro. Globo e Band – que detêm os direitos de transmissão dos principais eventos –, transformam competições esportivas em megaespetáculos televisivos. Sempre com direito a múltiplas e lucrativas inserções publicitárias. No domingo passado, com a primeira vitória de Rubens Barrichello na Fórmula 1 no Grande Prêmio da Alemanha, a Globo deu uma aula de como rentabilizar um evento esportivo.
A corrida manteve uma média de 23 pontos no Ibope, mas só foi Rubinho chegar em primeiro para a Globo transformá-lo num novo herói nacional. Ao final da prova, a emissora de Roberto Marinho registrava expressivos 31 pontos de pico de audiência, às 11 horas da manhã. De olho na valorização das cotas de publicidade, a Globo aproveitou a comoção do povo para ‘‘deitar e rolar’’ durante toda sua programação.
Já no ‘‘Esporte Espetacular’’, Rubinho foi o centro das atenções. Ele falou ao vivo da emoção da primeira vitória, aproveitou o espaço para agradecer a todos que o ajudaram a chegar na F-1 e dedicou a conquista a Ayrton Senna. Durante o programa, a Globo também transmitiu a entrevista coletiva dos três primeiros colocados da corrida. Há muitos anos a emissora não mostrava as normalmente enfadonhas e repetitivas coletivas de imprensa promovidas pelos organizadores após as provas.
Findo o ‘‘Esporte Espetacular’’, a peregrinação de Rubinho pela programação dominical da Globo só estava começando. Nos intervalos de todos programas da emissora, o repórter João Pedro Paes Leme mostrava a festa da família Barrichello com a vitória do piloto brasileiro.
E foi no ‘‘Domingão do Faustão’’ que o piloto exibiu uma insuspeita faceta de ‘‘showman’’. Ele participou ao vivo do programa, cantou com o sertanejo Daniel e ainda respondeu aos críticos, além de chorar. E muito. No intervalo dos jogos de domingo – Goiás contra o Corinthians e Juventude contra o Flamengo –, a Globo aproveitou para enfatizar as homenagens feitas pelos torcedores. Tanto em Goiânia quanto em Caxias do Sul apareceram oportunos cartazes com mensagens. O eufórico segundo piloto da Ferrari só se despediu da programação dominical da Globo quando o ‘‘Fantástico’’ deu lugar ao ‘‘Sem Limite’’.
Mas não é só nas corridas que as emissoras formatam eventos esportivos como espetáculos televisivos. O futebol de campo é outro exemplo da preponderância da estética televisiva sobre os interesses do esporte. São as emissoras que definem a tabela e os horários das competições. Só que assistir a uma partida de futebol tanto na Globo quanto na Band está se tornando um sacrifício para o torcedor. As emissoras se esquecem de mostrar o jogo em si e dão mais importância para os acontecimentos fora das quatro linhas. A festa da torcida, a excessiva repetição dos replays e imagens longas e desnecessárias em cima dos treinadores estão ganhando espaço nas coberturas. Dos 90 minutos de uma partida, as redes chegam a perder até cinco minutos da transmissão para mostrar estes lances extra-campo.
O mesmo enfoque festivo e ufanista dado à vitória de Rubinho é corriqueiro nos jogos de futebol. O espetáculo em si – no caso, o jogo – fica em segundo plano para as emissoras, que preferem dar prioridade a tudo que acontece fora das quatro linhas. Globo e Band adoram mostrar torcedores exibindo cartazes elogiando respectivamente Galvão Bueno e Luciano do Valle. Às vezes, os torcedores aprontam inusitadas supresas. Como um cartaz exibido pela Globo, onde se lia em letras garrafais o nome ‘‘Galvão’’ sutilmente sublinhado pela sugestão ‘‘vá pentear macaco!’’.
Além de tentar mostrar que contam com o afeto do torcedor, as emissoras também desperdiçam muito tempo com os comentaristas, que muitas vezes fazem relatos redundantes e desnecessários do que se vê na partida. Quando o jogo está para começar, a escalação das equipes normalmente é dada de forma apressada. É comum os locutores esquecerem de ressaltar a ausência ou a presença de jogadores importantes por causa do tempo perdido com banalidades diversas.
Mas é durante a partida que as emissoras realmente abusam da paciência do telespectador. Por causa de uma jogada tola, para satisfazer o ego dos comentaristas de arbitragem, a Band e a Globo chegam a repetir lances por três ou quatro vezes. Em cima da jogada, o comentarista aproveita a deixa para discutir com a imagem que normalmente, por si própria, mostra a legitimidade ou não do lance. Mas o fato desse tipo de comentário ser redundante e dispensável é apenas um detalhe. Seja nas pistas ou nos gramados, a obsessão das emissoras brasileiras é sempre a mesma: transformar em show tudo que está em volta dos eventos esportivos.

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