Vale tudo?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
''Sempre que um homem ambiciona um cargo elevado, uma podridão começa a aparecer em sua conduta.'' A célebre frase de Thomas Jefferson, ex-presidente dos Estados Unidos, pode também servir como um resumo para a trama que envolve o filme ''Tudo Pelo Poder'' - estreia de hoje na programação do cine Com-Tour/UEL. O drama recebeu quatro indicações nas categorias principais do Globo de Ouro, e pode ser um forte concorrente ao Oscar deste ano.
Contando a história fictícia dos bastidores da campanha do governador democrata Mike Morris (George Clooney), na reta final da corrida presidencial, desde o início do longa acompanhamos o intenso trabalho de seus dois assessores, o experiente Paul (Philip Seymour Hoffman) e seu discípulo, o apaixonado e talentoso Stephen Myers (Ryan Gosling, fantástico no papel). Do lado republicano da campanha, está o maquiavélico Tom Duffy (Paul Giamatti). Logo, percebemos que o jogo político é como um jogo de xadrez, onde os partidos tentam prever os movimentos dos adversários, e minar as estratégias no tabuleiro das eleições.
Acreditando nas propostas liberais do governador Morris - que é a favor do aborto, dos investimentos em energia renovável e do fim da guerra contra o terrorismo - Stephen se vê cumprindo uma missão democrática ao lutar pela eleição do candidato, e deixa isso explícito em conversas informais com a repórter Ida Horowicz (Marisa Tomei). No desenrolar da trama, o assessor também se envolve com a jovem estágiaria Molly (Evan Rachel Wood), e a descoberta de alguns 'esqueletos no armário' abalam irremediavelmente a sua visão idealista. Nos traiçoeiros bastidores da política, sobrevive apenas quem é dono de um caráter ''flexível'' o suficiente.
Talentoso como sempre, George Clooney (ator, diretor e co-roteirista do filme) exibe algumas habilidades desenvolvidas nos últimos anos, em que se aproximou mais da cadeira de diretor. Sua evolução por detrás das câmeras pode ser acompanhada pelos ótimos ''Conduta de Risco'' (2007) - em que foi produtor executivo - e ''Boa Noite e Boa Sorte'', primeiro longa que Clooney dirigiu. Todos eles são dramas maduros, que exploram os dilemas de personagens em situações que exigem uma certa ambiguidade moral.
A pré-produção de ''Tudo Pelo Poder'' começou há cerca de três anos, e é interessante notar que existem diversas referências à campanha de Barack Obama no longa - tanto na arte dos cartazes do candidato Mike Morris quanto no seu discurso apaixonado, e de retórica impecável. Em uma metáfora inteligente, o título original do filme (''Ides of March''), serve como referência direta ao assassinato de Julio Cesar pelos senadores romanos, em uma conspiração liderada pelo seu braço-direito, Brutus. Aqui, não é um corpo ensanguentado, mas a própria moralidade que jaz no chão da arena política, mutilada pela ambição desmedida: dentro de um universo onde os fins sempre justificam os meios, a integridade é a pior qualidade que existe.


