Vale a pena ver de novo?
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sábado, 23 de abril de 2016
Anna Bittencourt<br> TV Press 
Reaproveitar conteúdos faz parte do "modus operandi" da televisão. Apesar do crescimento e das facilidades da tevê "on demand", em que qualquer produção pode ser acessada rapidamente, é prática recorrente das emissoras voltarem a exibir suas novelas anos mais tarde. O motivo pode variar. Desde ocupar um espaço pouco valorizado na grade, testar um tipo de folhetim ou até resgatar a memória afetiva do telespectador.
Criado nos anos 1980, o "Vale a Pena Ver de Novo" é o espaço destinado na Globo para relembrar o passado. "Anjo Mau", exibida em 1997, é a atual "bola da vez". Para Amauri Soares, diretor de programação da emissora, o espaço para as reexibições já faz parte da identidade da grade global e funciona como um termômetro para os folhetins inéditos. "Não é uma regra. Mas dá para saber o tipo de título que o telespectador espera de acordo com a audiência da reprise", opina.
O Viva, criado no início de 2010, foi pensado para ser um repetidor de produções da Globo. Ainda que o canal a cabo venha produzindo conteúdos próprios, as reexibições continuam sendo seu "carro-chefe". Com dois horários de exibição de folhetins, o Viva seleciona suas produções em parceria com a Globo, até para não se "chocar" com o "Vale a Pena Ver de Novo". "A Globo também faz um trabalho sistemático para a liberação dos direitos das obras", explica Clarisse Goulart, coordenadora de conteúdo do Viva. Segundo ela, as produções são escolhidas através do que é pedido pelos telespectadores. "A grade é montada de acordo com os desejos e anseios dos assinantes e composta por programas que foram ou ainda são sucesso de audiência", afirma.
Ainda há, para a coordenadora, uma preocupação em manter o padrão de imagens. "Priorizamos conteúdos a partir de meados da década de 1980 pela qualidade técnica e visual. Porém, isso não é uma política obrigatória", garante. Diferentemente da Globo, o Viva transmite as novelas na íntegra.
Para os autores, ver sua novela reprisada é um motivo para se orgulhar de um trabalho bem desempenhado. No entanto, os cortes promovidos para diminuir o folhetim ou para adequar a trama a uma nova classificação indicativa causam mal-estar.
Glória Perez não ficou muito satisfeita com a recente reexibição de "Caminhos das Índias", no "Vale a Pena Ver de Novo". "Acho que a reprise é sinal que a novela foi bem. Mas é preciso melhorar a edição. O produto é da emissora e ela faz o que bem entender, mas algumas tramas e cenas são cortadas sem critérios e essa tática deixa tudo sem nexo", reclama a autora.
Aguinaldo Silva é outro que lamenta as adequações feitas pela Globo. "Não entendo muito os critérios do 'Vale a Pena Ver de Novo'. Além disso, a última novela minha que reprisaram foi em 2009", ressalta, referindo-se a "Senhora do Destino".
Já no SBT e na Record, a tática de reprises segue uma máxima: aproveitar o "filão" do mercado. Entre uma temporada e outra de "Os Dez Mandamentos", a Record aproveitou para exibir suas minisséries bíblicas e "segurar" a audiência no horário. Para Paulo Franco, superintendente artístico da emissora, é necessário explorar o nicho. "Tanto 'José do Egito' quanto 'Milagres de Jesus' foram muito bem aceitas pelo telespectador. É natural que elas voltem à nossa grande uma vez ou outra", justifica.
Além do seu já clássico horário de reexibições de tramas mexicanas durante toda a tarde, o SBT também procurou "prender" o público infantil colocando "Carrossel" no ar quatro anos após sua exibição original. E a emissora já anunciou: quando o folhetim acabar, vai reprisar "Chiquititas".
Assim como Glória Perez, que não gosta de edições na sua história original, outros atores também têm ressalvas quanto às reprises. Para Benedito Ruy Barbosa, a Globo errou ao recolocar "Terra Nostra" cedo demais no ar em "Vale a Pena Ver de Novo", da Globo. "Tem de ser quando o telespectador está com saudade", diz o autor do folhetim exibido originalmente em 1999 e reexibido em 2004.
Os entraves, no entanto, param quando as reprises são feitas no canal a cabo Viva. Silvio de Abreu exalta a preocupação do canal em mostrar também conteúdos novos. Quando "A Próxima Vítima" foi reexibida, nos intervalos, os atores que participaram do folhetim entravam em pequenas "pílulas" que relembravam as gravações da novela. "É uma valorização incrível do meu trabalho e de todo mundo que fez parte da equipe", comemora. (A.B.)
■ A Globo tem o hábito de reprisar novelas desde 1970. No entanto, o "Vale a Pena Ver de Novo" só foi criado em maio de 1980.
■ "Marimar" e "Maria do Bairro" são as novelas mexicanas que mais vezes foram reprisadas no Brasil. Protagonizadas por Thalía, elas foram ao ar quatro vezes.
■ Desde sua criação, o Viva já reexibiu cerca de 30 folhetins.
■ No "Vale a Pena Ver de Novo", "A Viagem", "A Gata Comeu" e "Mulheres de Areia" são as campeãs de reexibição: duas vezes cada uma.


