A mais importante mostra de artes plásticas já realizada no País, a Mostra do Redescobrimento, Brasil + 500 anos (até o dia 7 de setembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo), pretende mostrar um retrospecto visual da nossa produção pictória. Tudo relacionado ao evento é superlativo. O investimento, orçado em R$ 40 milhões, arregimentou 15 mil peças, distribuídas em 6 km. A maratona exaustiva, para muitos, se transforma numa overdose visual.
A Mostra tem como vedete a produção concebida pelo primeiro correspondente estrangeiro a aportar no Brasil, Pero Vaz de Caminha. Na penumbra, uma página dupla da Carta repousa diante de olhos curiosos. Vê-la, é transportar-se no tempo, há 500 anos. Não é possível entender uma palavra do registro da caligrafia, muito similar ao árabe. O suporte amarelado surpreende pelo incrível grau de conservação. O jornal de ontem parece menos conservado do que a Carta de Pero Vaz de Caminha.
Na lateral, numa espécie de oca de metal, toda drapeada, acontece ininterruptamente a leitura gravada da Carta, feita com maestria pelo autor Paulo Autran. Ladeando o cenário da Carta, 22 artistas plásticos fizeram uma releitura visual do documento, com evidente superioridade dos artistas brasileiros.
Um dos pontos altos na concepção da Mostra é inserir um módulo dedicado à Arte Popular. Peças pertencentes ao cangaço impressionam pela riqueza no acabamento. O ambiente inóspito em que viviam Lampião e seu bando foi compensado com roupas e acessórios dignos do rei do sertão. Lampião costurava e bordava suas roupas, preocupadíssimo com os ornamentos. Maria Bonita carregava sua ‘‘Singer’’ pela caatinga. Suas roupas foram adaptadas das melindrosas, para poder se movimentar entre pedras e mandacarus. A moda de Maria Bonita era vanguarda para uma época em que a medida das saias chegava aos pés.
No Módulo Arte Popular, pode-se constar a influência de Mestre Vitalino na confecção das peças de barro. Os seguidores se multiplicaram. No inconsciente coletivo desses artistas, residem incomensuráveis informações visuais que desaguaram em forma de pequenas maravilhas moldadas em mãos calejadas e hábeis.
Oca reúne arte e adornos
dos índios brasileiros
Na Oca foram valorizadas as linhas sinuosas concebidas por Oscar Niemeyer nos anos 50, abrigando adornos e contornos precisos da arte marajoara, com imensas urnas funerárias. O andar superior da Oca, merece um olhar atento na arte dos índios Wayana (PA). A moda indígena se revela de uma ousadia inconcebível. São adornos delicados, minimalistas, de confecção complexa. Os índios descobriam materiais inusitados para compor seus adornos, como contas de caramujo aruá, ou então asas de besouro furta-cor, de colorido e estética impressionantes. A excelência da arte plumária dos índios não ficou devendo em nada à natureza. A percepção estética apurada de um labrete (ornamento usado no lábio inferior) causa impacto pela excelência na distribuição de cores e formas.
O investimento mais significativo, o Cine Caverna, custou R$ 5 milhões, valor distribuído nas viagens, concepção do espaço e produção do filme. Com esse dinheiro seria possível realizar, com folga, três longas-metragens. O documentário ‘‘...antes. Uma Viagem pela Pré-História Brasileira’’ é um mergulho high-tech no nascimento da civilização. Bem realizado, as imagens surpreendentes do Monte Pascoal, visto de cima, mostram a exuberância da região. Importantes heranças artísticas, tatuadas nas rochas há 10 mil anos se mostram incrivelmente conservadas. São 400 sítios arqueológicos em 11 mil e 500 anos de história, revelando o Brasil como um celeiro de respostas arqueológicas.
Bia Lessa criou cenário
florido para o barroco
Sem a assessoria visual dos cenógrafos, no Módulo Arte Contemporânea, as peças ficaram diluídas nos corredores. Isso fica ressaltado, quando o visitante passa pelo Módulo Arte Barroca, concebido cenograficamente por Bia Lessa. As 380 peças desse setor, ao contrário da Arte Contemporânea, estão distribuídas em sinuosos caminhos floridos ou arborizados. Aleijadinho, mulato gênio que morreu sem consolação, pode ser apreciado em significativas obras. Bia Lessa propicia ao visitante uma imersão total na arte barroca. Sem dúvida, um dos trabalhos mais impactantes da Mostra do Redescobrimento.
No Módulo Olhar Distante, grandes nomes da pintura que passaram pelo Brasil, atuaram como repórteres iconográficos nos tempos coloniais. Trabalhos de Frans Post, Alfred Eckout e Jean Baptiste Debret podem ser apreciados. A aquarela de Debret, ‘‘Batizado de uma Mulher e Crianças Negras’’, a partir de 1976 ficou mundialmente conhecida, depois que foi utilizada na abertura da telenovela ‘‘Escrava Isaura’’, de Gilberto Braga.
Redescobrir o País usando como suporte a produção das artes plásticas, a princípio, pode parecer pretensioso. Pode-se realmente repensar nossa identidade vendo a cópia de um crânio de 11 mil anos, ou um quadro de Debret, feito no período colonial, ou um manto tupinambá? De que modo o público leigo pode fazer essa leitura, apreendendo tanta informação? A consultoria de monitores treinados auxilia o trajeto.
Mas as respostas dependem, fundamentalmente, do nível de informação visual do visitante e não do nível socioeconômico. A imersão no complexo panorama simbólico instiga, abre os canais. A releitura do País, pelo canal da sensibilidade, se traduz na possibilidade de resgatar a auto-estima, conhecer nosso potencial cultural e artístico. Quando a Mostra do Redescobrimento visitar os principais museus da Europa e Estados Unidos, e a repercussão positiva sobre nosso panorama simbólico emergir, certamente, esse redescobrimento começará a se dar por aqui. Ainda precisamos de uma aprovação externa.

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