O Grupo Boca de Baco busca renovação em sua trajetória teatral de 11 anos e promoveu um intercâmbio com o diretor paulista Luiz Valcazaras. Ele aportou em Londrina no dia 9 de abril para dirigir o novo espetáculo do grupo, ‘‘Fando e Lis’’, do dramaturgo franco-espanhol Fernando Arrabal, um dos maiores representantes do teatro do absurdo. Mas o trabalho com o Boca de Baco não se limitou à direção da peça. Valcazaras trouxe para o Londrina o ‘‘Processo de Criação N.I.T. – Núcleo de Investigação Teatral’’ desenvolvido por ele ao longo de vários anos.
O Boca de Baco estréia o novo espetáculo no dia 6 de julho e o processo de criação prossegue paralelo à montagem. Agora, o grupo e o diretor Luiz Valcazaras pretendem passar para outros atores as bases do ‘‘Processo de Criação N.I.T’’, ministrando um workshop em Londrina. Em ‘‘Anjo Duro’’, trabalho de direção de Valcazaras em que sedimentou esse processo, a atriz Berta Zemel ganhou elogiosas críticas pelo desempenho e recebeu o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) pela emocionante atuação.
Partindo do princípio que todo bom ator é um bom contador de história, o processo desenvolvido por Luiz Valcazaras busca potencializar essa qualidade. Mas com um diferencial, ele não quer um simples contador de histórias, mas um contador de imagens. A diferença reside no fato de aproveitar todo o potencial imaginativo do ator para criar imagens e não simplesmente narrar um fato. ‘‘Eu acredito que há mudanças na forma de atuar, ao trabalhar a pessoa como contador de imagens’’, diz Valcazaras.
O processo está estratificado em vários módulos. Um dos exercícios, denominado de ‘‘giro’’ (os atores giram olhando uma das mãos), se baseia num princípio de meditação. ‘‘Nesse exercício, o ator se equaliza, volta para seu centro’’, explica o diretor. O giro tem gradações de tempo para ser desenvolvido, começando com três minutos, chegando a 45. Quando se pára de girar, fixa-se o olhar num ponto e verbaliza imagens que vem à mente. O ator cria histórias dessa imagem, procurando a simplicidade, como se busca o Santo Graal. No processo alternam-se também exercícios em que o ator conta histórias reais e outras com resgate de imagens do inconsciente. Valcazaras não descuida da respiração, para que se tenha um controle mais preciso da ansiedade. Depois desse processo é que inicia-se o trabalho com o texto teatral propriamente dito e a criação de personagem.
Para o ator Paulo Munhoz, que faz um dos personagens do espetáculo ‘‘Fando e Lis’’, o processo Valcazaras prepara o terreno para a criação de personagens, começando do ponto zero. Em montagens anteriores, seu trabalho se resumia à leitura, decorar o texto e ir para a cena, com as informações sendo acrescentadas como uma bola de neve, sem uma sistematização.
Também integrando o elenco, Walter Balthazar, que também atua no Grupo Usina Ozona, de José Celso Martinez Corrêa, em São Paulo, avalia esse trabalho de preparação de ator como o de busca do autoconhecimento. ‘‘Não há um desgaste físico e emocional como antes. A gente exercita também a auto-observação’’, revela. Primeiro, busca-se o personagem, resvalando na desconstrução ao se retirar a ‘couraça’ do ator. ‘‘Chega num determinado momento, em que tudo está tão assimilado, que a gente está mexendo a colher na xícara de leite, pela manhã, e começa a criar histórias sem parar’’, prossegue Walter. O processo potencializa o lado imaginativo. Para ele, se o ator buscar sua própria loucura, o texto absurdo de Arrabal serve apenas de esqueleto.
O workshop com o diretor Luiz Valcazaras e o Grupo Boca de Baco que apresenta as bases do Processo de Criação N.I.T. (Núcleo de Investigação Teatral) acontece nos dias 15, 16 e 17 de junho na Funcart (Rua Souza Naves, 2380. Horários: Sexta (19h30 às 23 horas); sábado e domingo (das 15 ás 18). Vagas Limitadas. Taxa: R$ 40,00 (estudantes e alunos da Funcart pagam meia). Inscrições na Secretaria de Cultura, com Donizete ou Regina (Praça 1º de Maio, 110) Informações: (43) 321-6600. Ramal: 216.

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