A vontade de apostar em alguma coisa para a qual tivesse jeito levou o então jovem Pedro Bial a deixar o estudo de Belas Artes e optar pelo Jornalismo. Na época, ele era um leitor contumaz de Tintim, personagem de quadrinhos do belga Hergé, que viajava o mundo atrás de reportagens e aventuras. Hoje, aos 38 anos, Bial já pode se dar ao luxo de sentir-se como um autêntico Tintim. Ele já viajou boa parte do planeta nos oito anos em que atuou como correspondente internacional da Globo.
Bial esteve presente em alguns dos acontecimentos mais importantes da recente história mundial, particularmente em guerras civis como as de Angola e Sarajevo, na antiga Iugoslávia. ‘‘É nas situações-limite que a natureza humana se revela com toda maravilha e horror’’, diz.
De volta ao Brasil desde o início deste ano, o jornalista deixou de lado o glamour e aventura da vida agitada de correspondente para ser apresentador do Fantástico. Isso acabou rendendo a ele algumas críticas de colegas da imprensa, que o acusam de estar à frente de um programa sensacionalista. ‘‘Temos de fazer um coquetel equilibrado de notícias para todo tipo de público’’, diz Bial, tentando mostrar que não é bem assim.
Com um prestígio similar ao dos principais galãs da teledramaturgia - ele recebe dezenas de cartas por semana -, Bial não se incomoda nem um pouco em atrair os espectadores através de uma imagem de bibelô. ‘‘Não vejo problema no fato de senhoras me acharem bonitinho e ligarem a tevê para se informarem’’, raciocina.
Bial diz que sua tranquilidade em relação ao assunto é consequência do fato de não se levar muito a sério. Por isso, acha que não corre o risco de ser seduzido pelas tentações que, quase sempre, surgem junto com o prestígio. ‘‘A minha vaidade está voltada para o trabalho’’, finaliza o jornalista, que tem planos de passar alguns anos no Brasil, mas pretende botar o pé na estrada no futuro. ‘‘Ainda quero morar em Nova York’’, projeta.
O que o levou a trocar o trabalho de correspondente internacional pelo de apresentador do Fantástico?
Pedro Bial - Acredito que encerrei um ciclo em Londres. Já estava começando a me repetir e também fiquei atraído pela oportunidade de dominar a apresentação de um estúdio. Eu encaro tudo isso muito mais como um desafio do que um rebaixamento. Mas não deixei de lado as reportagens. O que as pessoas devem sentir falta é da imagem de um repórter cruzando o mundo. E, além de tudo, já estava com vontade de voltar ao Brasil para passar adiante um pouco da experiência que acumulei no exterior. Quando a gente mora muitos anos fora, acaba adquirindo uma visão mais imparcial sobre o próprio País. Coisa que é difícil perceber vivendo aqui, pois ficamos com a visão mais afetada pela paixão.
O que mais o incomodou na readaptação ao Brasil?
Bial - Não consigo e jamais conseguirei me adaptar à indisciplina brasileira. A esta equivocada associação que se faz entre criatividade e bagunça. Isso é muito perceptível no trânsito da cidade. Aqui as pessoas buzinam, furam sinais vermelhos e estacionam seus carros na calçada com a maior naturalidade. Coisa que nem no mundo árabe a gente vê. Há muitos casos em que a gente percebe a má vontade do brasileiro em relação à disciplina.
Como o quê, por exemplo?
Bial - Na última Copa do Mundo, em que nos sagramos tetracampeões, o técnico Carlos Alberto Parreira foi exageradamente agredido por grande parte da imprensa só porque propunha ganhar a Copa com disciplina, mesmo que sem criatividade. As pessoas simplesmente não admitiam que um sujeito com a cabeça militar do Parreira dissesse que íamos vencer jogando como os alemães.
Você se refere aos jornalistas da imprensa paulista?
Bial - Não somente a eles, mas aos cariocas também. Com a exceção do Oldemário Touguinhó e do Telmo Zanini. Lembro-me bem do dia em que o Brasil empatou com a Suécia em 1 a 1, resultado que afirmou a seleção como dona da melhor campanha até aquele momento. No dia seguinte, porém, toda a imprensa nacional caiu massacrando a equipe durante uma coletiva. Os americanos não entenderam nada e um repórter do USA Today veio me entrevistar. Falei que o time estava no caminho certo e que seria campeão do mundo. A matéria teve uma boa repercussão, e, no dia seguinte, a seleção chegou arrasada nos treinos. Quando entrei no campo para trabalhar, o goleiro Gilmar e o Romário vieram lá do banco para me cumprimentar pela entrevista. Os coleguinhas ficaram muito passados, mas eu estava certo. Nós fomos campeões do mundo, e, o que é melhor, nos pênaltis!
Como você encara a fogueira de vaidades entre jornalistas?
Bial - É evidente que existe, mas de uma forma sutil, como em todas as demais áreas profissionais. No exterior, porém, a rivalidade é ainda maior entre os correspondentes. Os caras fazem de tudo para pisar em você. Já tentaram me sacanear por diversas vezes, mas nunca deixei. Os caras da rede inglesa BBC chegam do seu lado com uma superestrutura e acham que vão fazer tudo de maneira melhor do que você. Num belo dia, dei um furo neles e, logo depois, o sujeito, antes antipático, chegou todo interesseiro para tentar negociar a notícia que ele não dispunha. É uma verdadeira guerra, até porque na Europa se faz um jornalismo mais pluralizado do que no Brasil.
Em que sentido?
Bial - O nosso jornalismo ainda está a milhas de distância do que é praticado no exterior. As notícias são praticamente as mesmas em todos os jornais e a gente acaba ficando ilhado se não ler o New York Times ou um grande jornal europeu. A nossa cobertura internacional ainda é precária demais. Se você abre um jornal hoje, fica no maior bode! Só aparece notícia ruim e corrupção. Isso também é importante, mas o Brasil está muito mais animado e vivo do que isso. Tem vezes em que a nossa imprensa baila legal mesmo.
Você se lembra de alguma destas vezes?
Bial - Quando o então presidente Ernesto Geisel estava no poder, em 1974, todos os jornais e emissoras de tevê cobriam o governo como se fosse o apogeu da ditadura, quando, na verdade, o Geisel estava impondo o fim à ditadura. E ninguém percebeu isso. Até que apareceu o Glauber Rocha dizendo que o Geisel estava iniciando a abertura política e todo mundo chamou o cara de louco. No final das contas, quem estava com a razão era o Glauber.
O jornalismo mundial também não vive às custas de tragédias, especialmente as dos países de terceiro mundo?
Bial - Isso também é verdade. O mundo adora explorar igualmente o nosso lado exótico e mais dramático. Mas um leitor consegue se informar razoavelmente bem sobre tudo que acontece no mundo morando em Londres ou em Nova York. Se bem que, nas outras cidades americanas, as pessoas mal sabem o que acontece nos seus bairros.
Quais as maiores tragédias que você presenciou como correspondente?
Bial - Passei por algumas situações-limite na minha carreira. Como em Angola, quando toda a nossa equipe foi capturada por guerrilheiros da Unita e o meu motorista estava prestes a ser assassinado pelos guerrilheiros irados. Neste momento, me senti responsável por uma vida. Por sorte, acho que baixou um santo e consegui convencer o guerrilheiro a livrar a cara do motorista. De qualquer modo, fomos capturados e ficamos sob a mira de armas por cinco horas. Outro momento difícil foi quando fiquei na frente de batalha em Sarajevo. A gente ficava na linha de frente e não sabia de onde vinham os tiros. Voltei para Londres e ainda acordava assustado no meio da noite durante uns 15 dias.
Qual foi o momento que mais o marcou?
Bial - O que mais deixa marcas não são exatamente as cenas que se vê, mas as pessoas. Na guerra civil de Angola, a gente vivia dando notícias sobre o número de mortes, que parece se banalizar no terreno dos números. Teve um dia, no entanto, até certo ponto tranquilo, em que vários corpos chegavam boiando próximos ao hotel onde eu estava hospedado. Nesse momento é possível perceber que a morte assume uma concretude terrível. Realmente, não dá para se acostumar com a morte. De jeito nenhum.
Fala-se muito do glamour da vida de um correspondente internacional. E quais são as desvantagens de um trabalho tão fragmentado?
Bial - O preço dessa vida sem regras é pessoal, emocional e familiar. Você deixa de lado o cuidado com o corpo, a saúde física e, sobretudo, a paz. Hoje sou muito mais alquebrado do que deveria ser para a minha idade. Sou bichado mesmo. E tem aspectos contraditórios também. Por exemplo, eu morava em Londres, que é a cidade mais previsível do mundo. Ela tem grandes ofertas de lazer, mas só se você se programar com antecedência, porque todos estão de olho nas mesmas ofertas. Já cheguei por duas vezes a comprar ingressos para shows dos Rolling Stones. Mas no dia dos espetáculos estava ou na Jordânia ou em algum outro lugar, lá em Deus me livre.
Se o trabalho de correspondente internacional implica na perda da paz, por que ainda é um patamar tão ambicionado por profissionais de imprensa?
Bial - Na verdade, o telejornalismo só funciona porque tem um bando de malucos que acham que podem dar conta de tudo. E no final das contas, acabam dando mesmo. Caso contrário, nada ia para o ar. É uma loucura. Você sai de manhã cedo sem nada, tem de se preocupar em conseguir a matéria e a transmissão. A vida de um correspondente é de uma ciclotimia violenta. Após um dia de trabalho, quando uma matéria minha já foi ao ar, dá uma tristeza e um vazio enorme. Baixa a sensação que não há mais uma missão impossível para combater. Nestes momentos, costumava ficar triste. Ia beber sozinho nos pubs londrinos ou caminhar pela cidade, até a próxima reportagem.

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