Patrick HertzogO diretor Mathieu Kassovitz e o ator Michel SerraultCANNES - A representação francesa na seleção oficial do 50º Festival de Cannes não foi propriamente o que o orgulho nacional poderia esperar. Depois de dois filmes razoáveis - ‘‘Western’’, de Manuel Poirier, e ‘‘La Femme Defendue’’, de Philippe Harel -, a última esperança era ‘‘Assassin(s)’’, dirigido por Mathieu Kassovitz. A grande expectativa não era somente dos conterrâneos, mas de todos os críticos por aqui. Kassovitz é uma espécie de menino prodígio, enfant gate dos anos 90, bom ator e até ontem excepcional realizador. É dele o estonteante ‘‘O Ódio’’(La Haine), exibido no Brasil no ano passado, prêmio de melhor direção em Cannes-95 e prêmio Cesar de melhor filme francês de 96.
‘‘Melhor a rejeição que a indiferença’’. Entre outras muitas, a frase de efeito reflete bem a personalidade e a carreira controvertidas desse jovem de 29 anos, já acostumado à polêmica e vacinado contra críticas em geral. ‘‘Assassin(s)’’ nasceu para despertar discussões, debates, controvérsias. O argumento é gelidamente simples. Um velho assassino profissional (Michel Serrault) está procurando um sucessor. Aparece um jovem herdeiro para a função (Mathieu Kassovitz). Mas há um problema: o aprendiz tem ainda alguns escrúpulos, o que dificulta o metier . Um adolescente surge como opção de continuidade para o ofício de matar. Resta um banho de sangue.
Na melhor das hipóteses, ‘‘Assassin(s)’’ é um filme estranho, desesperado, dark . Mas, na verdade, é uma peça gritantemente grotesca por sua agressiva amoralidade, por uma espécie torpe de banalização do crime. Entre um e outro duro golpe durante a coletiva, Kassovitz tentou não se intimidar: ‘‘Não fiz um filme amável. É longo, com cenas difíceis que eu mesmo acho desagradável ver na tela. É uma metáfora. Não explico, mas são coisas que aparecem na vida. Fiz o filme para dizer: se continuamos assim, vamos trombar direto no muro. Se as pessoas insultam o filme e se metem dentro de casa tranquilamente diante da tevê, é sinal que a situação está muito mais desesperadora do que eu pensava’’.
O problema é que não há uma metáfora, não há elementos disponíveis para se obter uma síntese crítica. Há apenas a violência gráfica, quase insuportável, acentuada por uma sonoridade Dolby deliberadamente over . De certa forma constrangedora, a atuação de Michel Serrault (‘‘A Gaiola das Loucas’’), que aqui é evidentemente um caso de miscasting , mais ou menos o homem certo no lugar e na hora errados.

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