Vai começar a brincadeira
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de agosto de 1998
Hugo Almeida Agência Estado 
Arquivo FolhaZiraldo: projetos incluem três parques temáticos, o lançamento da revista Bundas e uma editora própria, que vai relançar A Turma do PererêZiraldo não é unanimidade nacional, mas ninguém pode negar: ele tem a preferência da maioria das crianças do País. O criador do Menino Maluquinho, livro que desde 1980 vendeu mais de 1,2 milhão de exemplares, está de volta aos cinemas com as aventuras de O Menino Maluquinho 2, já elogiado pela crítica. Escrever livros e fazer filmes é apenas uma das atividades deste inquieto multicriador nascido em Caratinga (MG), em outubro de 1932. Ziraldo Alves Pinto. Alves da mamãe..., costuma dizer. Minha mãe se chama Zizinha e meu pai, Geraldo. Meu pai somou parte dos seus dois nomes e inventou o meu, Ziraldo. Quer dizer: eu já nasci com pseudônimo, escreveu o artista no currículo apresentado ao Ministério da Cultura, em 1984, quando foi nomeado presidente da Funarte. No final do currículo, logo antes da assinatura, Ziraldo escreveu: Projetos futuros: todos. Agora, anuncia alguns, entre eles três parques infantis.
Se a burocracia oficial e a crítica apressada de alguns jornalistas (para eles, equivocados, broa de milho e banda de música não são manifestações culturais) impediram que Ziraldo desenvolvesse na Funarte seu projeto de recuperação dos valores populares nacionais, o artista nunca perdeu a esperança. Sempre otimista, segue trabalhando em diversos projetos, já anunciou vários: a abertura de três parques temáticos, o lançamento da revista Bundas (descontraída, de oposição, como foi o Pasquim) e uma editora própria, que vai relançar A Turma do Pererê do gibi.
Os parques, chamados de Planeta Z serão no Rio, em Brasília e em Foz do Iguaçu. Eles terão os brinquedos comuns dos grandes parques de diversão, mas vão ter também brinquedos simples como carrinhos de rolimã e pipas. O meu parque vai ter tudo com que o homem já brincou no século 20, disse Ziraldo ao JT. As crianças estão esquecendo como é que se brinca.
Para Ziraldo, os personagens da Turma do Pererê são muito atuais, pois são os precursores da questão ecológica. Lançada na década de 60, a turma tem todos os bichos do folclore brasileiro, o tatu, o coelho, o macaco, a onça, o jabuti, a coruja, lembrou. E acrescentou: Acho que agora, na virada do milênio, é a hora certa de eles voltarem. A preocupação com os brinquedos simples, o lado lúdico e com a ecologia (o Menino Maluquinho desenha passarinhos no mapa do Brasil) sempre acompanharam Ziraldo.
No seminário O Ato de Viver, na Faculdade de Medicina da UFMG, em abril de 1976, Ziraldo ficou encantado com a palestra do médico, professor e ecologista Angelo Machado, então pouco conhecido, que criticou a maneira como a natureza sempre foi encarada pelos adultos e, em parte, pela literatura. O adulto desestimula o gosto pela natureza (Não pode brincar com água, com terra; Não vai ao mato, que tem cobra), ninguém fala: Não vai para a cidade que tem FNM.
Nas estórias infantis, tudo de ruim acontece na floresta: Chapeuzinho Vermelho, João e Maria etc. O que acontece? O menino cresce, vira homem de negócio e acaba com a floresta, disse Angelo Machado, que foi aplaudidíssimo. Depois ele, era a vez de Ziraldo falar. Ele começou assim: Eu vim porque eu sabia que ia aprender. Pouco tempo depois, o Pasquim publicou uma bela entrevista com Angelo Machado, ampliando o que havia dito no seminário. Coisa de Ziraldo.
No ano passado, ele lançou o Manual de Sobrevivência do Menino Maluquinho, de certa forma um livro sobre os perigos da cidade (veja nesta página). Hoje Angelo Machado dirige a Fundação Biodiversitas e é autor de vários livros em defesa da conservação da natureza, entre eles O Velho da Montanha: Uma Aventura Amazônica (Melhoramentos, Prêmio Jabuti-1994), Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará (Melhoramentos, Prêmio Adolfo Aizen-1995) e O Menino e o Rio (Editora Lê, 14ª edição).
Autor consagrado pelo público e pela crítica (o Dicionário crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, de Nelly Novaes Coelho, editado pela Edusp, traz oito páginas sobre a obra do criador do Menino Maluquinho), com mais de 70 livros publicados (entre eles alguns clássicos, como o encantado Flicts, de 1969, e outros mais recentes, como Uma Professora Muito Maluquinha e Vovó Delícia), Ziraldo não assume atitudes de estrela nem de auto-suficiente. Como fez com Angelo Machado, ele continua reconhecendo e valorizando o trabalho de outras pessoas. Mesmo sendo um excepcional artista gráfico, em 1996, por exemplo, ele lançou Menino do Rio Doce (R$ 17,00), pela Companhia das Letrinhas, ilustrado com bordados de cinco mulheres sobre desenhos de Demóstenes. Ziraldo estava certo: o resultado, simplesmente encantador, foi consagrado com o prêmio de Melhor Livro do Ano da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e com o Prêmio Bloch.
Preocupado com a preservação da cultura nacional, Ziraldo está atento a todas as formas e tecnologias de comunicação (livro, filme, ópera, teatro, CD-ROM, videogame), mas nunca com o espírito consumista que costuma caracterizar os produtos infanto-juvenis. O que ele quer mesmo é que toda criança seja feliz como o Menino Maluquinho, garoto impossível, que tinha fogo no rabo e vento nos pés. E é para isto que Ziraldo está abrindo parques de diversão. Com certeza, neles vai haver banda de música, barracas com broas de milho e outras delícias e uma livraria cheia de livros úteis.
Hugo Almeida, escritor e jornalista, é autor de Todo Mundo É Diferente (Ed. Lê), Mais Rápido do que a Luz (FTD) e outros livros.


