Arquivo FolhaZiraldo: projetos incluem três parques temáticos, o lançamento da revista ‘‘Bundas’’ e uma editora própria, que vai relançar ‘‘A Turma do Perer꒒Ziraldo não é unanimidade nacional, mas ninguém pode negar: ele tem a preferência da maioria das crianças do País. O criador do ‘‘Menino Maluquinho’’, livro que desde 1980 vendeu mais de 1,2 milhão de exemplares, está de volta aos cinemas com as aventuras de ‘‘O Menino Maluquinho 2’’, já elogiado pela crítica. Escrever livros e fazer filmes é apenas uma das atividades deste inquieto multicriador nascido em Caratinga (MG), em outubro de 1932. Ziraldo Alves Pinto. ‘‘Alves da mamãe...’’, costuma dizer. ‘‘Minha mãe se chama Zizinha e meu pai, Geraldo. Meu pai somou parte dos seus dois nomes e inventou o meu, Ziraldo. Quer dizer: eu já nasci com pseudônimo’’, escreveu o artista no currículo apresentado ao Ministério da Cultura, em 1984, quando foi nomeado presidente da Funarte. No final do currículo, logo antes da assinatura, Ziraldo escreveu: ‘‘Projetos futuros: todos.’’ Agora, anuncia alguns, entre eles três parques infantis.
Se a burocracia oficial e a crítica apressada de alguns jornalistas (para eles, equivocados, broa de milho e banda de música não são manifestações culturais) impediram que Ziraldo desenvolvesse na Funarte seu projeto de recuperação dos valores populares nacionais, o artista nunca perdeu a esperança. Sempre otimista, segue trabalhando em diversos projetos, já anunciou vários: a abertura de três parques temáticos, o lançamento da revista ‘‘Bundas’’ (descontraída, de oposição, como foi o ‘‘Pasquim’’) e uma editora própria, que vai relançar ‘‘A Turma do Perer꒒ do gibi.
Os parques, chamados de Planeta Z serão no Rio, em Brasília e em Foz do Iguaçu. Eles terão os brinquedos comuns dos grandes parques de diversão, mas vão ter também brinquedos simples como carrinhos de rolimã e pipas. ‘‘O meu parque vai ter tudo com que o homem já brincou no século 20’’, disse Ziraldo ao ‘‘JT’’. ‘‘As crianças estão esquecendo como é que se brinca.’’
Para Ziraldo, os personagens da ‘‘Turma do Perer꒒ são muito atuais, pois são os ‘‘precursores’’ da questão ecológica. Lançada na década de 60, a turma tem todos os bichos do folclore brasileiro, o tatu, o coelho, o macaco, a onça, o jabuti, a coruja, lembrou. E acrescentou: ‘‘Acho que agora, na virada do milênio, é a hora certa de eles voltarem. A preocupação com os brinquedos simples, o lado lúdico e com a ecologia (o Menino Maluquinho desenha passarinhos no mapa do Brasil) sempre acompanharam Ziraldo.
No seminário ‘‘O Ato de Viver’’, na Faculdade de Medicina da UFMG, em abril de 1976, Ziraldo ficou encantado com a palestra do médico, professor e ecologista Angelo Machado, então pouco conhecido, que criticou a maneira como a natureza sempre foi encarada pelos adultos e, em parte, pela literatura. ‘‘O adulto desestimula o gosto pela natureza (‘‘Não pode brincar com água, com terra; Não vai ao mato, que tem cobra’’), ninguém fala: ‘‘Não vai para a cidade que tem FNM.’’
Nas estórias infantis, tudo de ruim acontece na floresta: Chapeuzinho Vermelho, João e Maria etc. O que acontece? O menino cresce, vira homem de negócio e acaba com a floresta’’, disse Angelo Machado, que foi aplaudidíssimo. Depois ele, era a vez de Ziraldo falar. Ele começou assim: ‘‘Eu vim porque eu sabia que ia aprender.’’ Pouco tempo depois, o ‘‘Pasquim’’ publicou uma bela entrevista com Angelo Machado, ampliando o que havia dito no seminário. Coisa de Ziraldo.
No ano passado, ele lançou o ‘‘Manual de Sobrevivência do Menino Maluquinho’’, de certa forma um livro sobre os perigos da cidade (veja nesta página). Hoje Angelo Machado dirige a Fundação Biodiversitas e é autor de vários livros em defesa da conservação da natureza, entre eles ‘‘O Velho da Montanha: Uma Aventura Amazônica’’ (Melhoramentos, Prêmio Jabuti-1994), ‘‘Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guarᒒ (Melhoramentos, Prêmio Adolfo Aizen-1995) e ‘‘O Menino e o Rio’’ (Editora Lê, 14ª edição).
Autor consagrado pelo público e pela crítica (o ‘‘Dicionário crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira’’, de Nelly Novaes Coelho, editado pela Edusp, traz oito páginas sobre a obra do criador do ‘‘Menino Maluquinho’’), com mais de 70 livros publicados (entre eles alguns clássicos, como o encantado ‘‘Flicts’’, de 1969, e outros mais recentes, como ‘‘Uma Professora Muito Maluquinha’’ e ‘‘Vovó Delícia’’), Ziraldo não assume atitudes de estrela nem de auto-suficiente. Como fez com Angelo Machado, ele continua reconhecendo e valorizando o trabalho de outras pessoas. Mesmo sendo um excepcional artista gráfico, em 1996, por exemplo, ele lançou ‘‘Menino do Rio Doce’’ (R$ 17,00), pela Companhia das Letrinhas, ilustrado com bordados de cinco mulheres sobre desenhos de Demóstenes. Ziraldo estava certo: o resultado, simplesmente encantador, foi consagrado com o prêmio de ‘‘Melhor Livro do Ano’’ da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e com o Prêmio Bloch.
Preocupado com a preservação da cultura nacional, Ziraldo está atento a todas as formas e tecnologias de comunicação (livro, filme, ópera, teatro, CD-ROM, videogame), mas nunca com o espírito consumista que costuma caracterizar os produtos infanto-juvenis. O que ele quer mesmo é que toda criança seja feliz como o Menino Maluquinho, garoto ‘‘impossível’’, que tinha ‘‘fogo no rabo’’ e ‘‘vento nos pés’’. E é para isto que Ziraldo está abrindo parques de diversão. Com certeza, neles vai haver banda de música, barracas com broas de milho e outras delícias e uma livraria cheia de livros úteis.
• Hugo Almeida, escritor e jornalista, é autor de ‘‘Todo Mundo É Diferente’’ (Ed. Lê), ‘‘Mais Rápido do que a Luz’’ (FTD) e outros livros.

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