Vagarosa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Da nova safra de cantoras brasileiras, a paulistana Céu foi a mais bem-sucedida ao projetar-se no exterior com seu aclamado disco de estréia. Quatro anos depois, ela volta a movimentar o panorama musical com o lançamento de Vagarosa, seu segundo álbum, que confirma seu talento como intérprete versátil e reforça sua vocação como compositora.
O CD chega às prateleiras pelo selo independente Urban Jungle, com distribuição da Universal. Uma versão em vinil também está a caminho, conforme ela adiantou à FOLHA. Climático, o trabalho apresenta uma acentuada influência de ritmos jamaicanos, com batidas espaçadas e rica teia de timbres extraídos de metais e teclados.
Das 13 faixas do repertório, apenas uma não traz sua assinatura: Rosa Menina Rosa, de Jorge Ben, com arranjo e execução instrumental de parte do grupo Los Sebozos Postizos um projeto formado por músicos da Nação Zumbi e ex-integrantes do Mundo Livre S/A. Céu dividiu a produção com Beto Villares, Gustavo Lenza e Gui Amabis.
Recentemente, a cantora mostrou as canções do novo disco durante uma miniturnê nos EUA, cujo roteiro incluiu New York, Seattle, São Francisco e Los Angeles. A receptividade foi calorosa com casas lotadas e críticas elogiosas em jornais como o New York Times. Já a turnê nacional foi selecionada no programa Natura Musical e irá percorrer 12 cidades das cinco regiões do País durante cinco meses, com ingressos a preços populares.
A temporada de shows começou anteontem em Porto Alegre. Hoje ela se apresenta no palco do John Bull Music Hall, em Curitiba. A seguir, leia entrevista que a cantora concedeu por telefone à FOLHA.
Que mudanças ou diferenças você destacaria entre Vagarosa e seu disco de estréia?
Sonoramente, o novo disco está mais orgânico e menos eletrônico. Quis tirar todo tipo de beat, evitando agregar excessos de camadas e texturas para deixá-lo mais enxuto. Segui a filosofia do menos é mais. Nesse sentido, ele está mais simples. Além disso, o álbum traz as coisas que vivenciei desde que lancei o primeiro trabalho: a turnê no exterior, o nascimento de minha filha, enfim, todas as experiências que foram se incorporando nas composições.
O disco traz uma influência acentuada de ritmos jamaicanos. Qual a importância do reggae em seu trabalho?
Sempre gostei de música jamaicana, porém, sem nunca perder de vista o samba, que é a fonte onde eu me alimento de brasilidade, assim como o baião e elementos nordestinos.
Como foi o convite para a participação de Luiz Melodia no disco?
Sou fã dele. Quis chamá-lo já para o primeiro disco, mas achei que estaria sendo metida em convidá-lo. Aí rolou um show no Ibirapuera, em São Paulo, eu, ele e uma orquestra no palco. Nesse dia perdi a timidez, resolvi convidá-lo e ele topou. Depois, quando compus Vira-Lata, percebi que ela caía como uma luva em sua figura.
Você assina todas as músicas do CD, à exceção de Rosa Menina Rosa, de Jorge Ben. O que essa faixa tem de especial?
Adoro Jorge Ben, adoro essa música. É a música que canto para minha filha, que se chama Rosa. Além disso, tenho uma relação muito especial com o arranjo criado pelos Los Sebozos Postizos, que fazem um show dedicado à obra do Ben.
Como é seu processo de composição?
Cada música sai de um jeito. Geralmente faço a melodia com a letra, depois vou cantando e busco a harmonia no piano ou no violão. A coisa vai se construindo aos poucos. Às vezes, a música sai bem rápido: fiz o Vira-lata em 1 hora.
Você está voltando de uma turnê pelos Estados Unidos. O seu público lá é americano ou formado por brasileiros lá radicados?
A maior parte é americana. Foi assim em New York, Seattle, Los Angeles, San Francisco e Albuquerque. Acho que Miami foi a única cidade em que a maioria da platéia era de brasileiros.
Os seus discos e shows têm tido boa recepção crítica nos Estados Unidos. A que você atribuiria essa empatia?
Não sei exatamente. O que gostaria de frisar é que o selo Urban Jungle faz um grande trabalho de divulgação de seus artistas lá fora. É um trabalho de formiguinha, direcionado para segmentos de público específicos. Por outro lado há, tanto nos Estados Unidos como na Europa, uma sede de conhecer um outro lado da música brasileira, que não seja aquela tradicional ou estereotipada. Na verdade, bem antes de mim, Caetano Veloso, Tom Jobim e Baden Powell também tiveram essa receptividade.
Alguns artistas já anunciam que não pretendem mais lançar álbuns, mas apenas singles e EPs avulsos para download. O que você pensa sobre isso?
É um processo inevitável e não dá para nadar contra a maré. A música se espalha muito rapidamente hoje. Se você for ver, a próxima geração já chega com pen drive na escola. Mesmo assim, acredito que o álbum impresso vai coexistir com o formato virtual. O próprio vinil voltou com tudo no exterior. Meu disco, inclusive, será lançado em vinil brevemente.


