Inspirado na novela gráfica que Alan Moore criou em 1980 - o autor retirou o nome dos créditos por discordar da adaptação -, ''V de Vingança'' pretende ser uma voz de advertência contra os perigos do totalitarismo que os governos chegam a praticar em nome da segurança, restringindo ou mesmo anulando as liberdades individuais. Mas o resultado é a superficialidade conceitual, mais complacente com o público juvenil a que o filme se destina, e uma colocação simplista à moda HQ, em que pese o desenho de produção sofisticado e algumas outras virtudes colaterais.
A trama se desenvolve na Inglaterra, em futuro próximo (2020), onde uma catástrofe biológica foi o pretexto para o surgimento de um governo fascista (com ecos do ''1984'' de George Orwell). A nova ordem aboliu as liberdades individuais e erradicou grupos sociais e étnicos ''indesejáveis''. Há um líder autocrata e obcecado (John Hurt) que comanda um estado policial; um cérebro que manobra nas sombras enquanto uma espécie de Bin Laden lança ameaças pela tevê, e uma censura que julga perigosos músicas, pinturas e filmes.
Contra este regime despótico surge o anti-herói V (Hugo Weaving), inspirado em personagem que teria existido na Inglaterra há cerca de 400 anos, um certo Guy Fawkes, mercenário católico que infernizou a corte de James I e planejou explodir o Parlamento. E é exatamente num 5 de novembro, data em que os ingleses celebram com foguetório a prisão e posterior execução do anarquista Fawkes, que seu atual sucessor decide iniciar uma série de atentados terroristas para destruir o governo neonazista.
Bizarra mistura de Fantasma da Ópera, Batman, Conde de Montecristo e até com ressonâncias do Zorro, este V é alguém com sede de vingança, uma solitária vítima da feroz ditadura fascista da Inglaterra. Sua indumentária é uma capa negra, suas habilidades incluem tanto a extrema perícia no manejo de facas como o domínio pleno das artes marciais. V se esconde sob um sorriso cínico pintado na máscara reproduzindo os traços de Fawkes, mas que faz lembrar aquelas da commedia dell'arte. Por trás de suas ações há ainda a cumplicidade do honesto policial Finch (Stephen Rea). E ele, V, é claro que tem muito dinheiro para levar adiante a missão vingativa. Também é evidente que tem seu esconderijo secreto, agora refúgio da jovem Evey (Natalie Portman), salva por ele das más intenções de agentes de segurança.
''V de Vingança'' é um filme que não se realiza, mas também não se frustra por completo. Sobe no muro e fica ali, entre contemplativo (às vezes prejudicado por diálogos em excesso) e dinâmico (não se pode negar uma intensa vibração de thriller). O que é intrigante e quase espantoso é mesmo sua proposta, digamos, ideológica.
Sabe-se que ao espectador é lícito e até recomendável simpatizar com alguém na tela que se mostra contra um sistema contrário às liberdades civis e que aterroriza a sociedade. Mas quando o protagonista deste filme é um terrorista, entram em jogo outras questões que comprometem a ética e o sentido primário da vida. Por isso a moral da história é ambígua, francamente contraditória e perigosamente romântica, quase irresponsável quando absolve o terrorismo em nome de nobres ideais. Pena que os irmãos roteiristas Wachowski, autores de ''Matrix'', e o diretor James McTeigue não tenham visto o recente ''Munique'' de Spielberg. Tudo o que precisavam saber está ali.
(A.E.L.J.)

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