A chamada ''arte russa de vanguarda'' é um dos temas mais apaixonantes da história da arte, porque está intimamente ligada à revolução proletária levada a cabo, em 1917, por Lênin e seus camaradas Bolcheviques e por se desdobrar em questões fundamentais para o desenrolar da própria arte ocidental.
Se aqueles anos de efervescência foram duramente cerceados na Rússia stalinista, a partir de 1927, vários ecos daquelas propostas continuam a se fazer ouvidos ainda hoje. E menos por uma questão temática do que pelo uso da linguagem, coisa que parece incomodar ainda mais aos realistas-soviéticos de plantão. Basta lembrar as propostas de Malevitch, com seu purismo suprematista, Tatlin e os construtivistas, que queriam acabar com a arte e inseri-la nos meios produtivos a serviço das causas revolucionárias e o meio termo entre eles, os irmãos Gabo e Pesvner, com suas esculturas geométricas feitas com materiais industriais, que influenciaram diretamente outras escolas, como a Bauhaus, na Alemanha, fechada pelos nazistas.
Com o fim da 2 Guerra e o início da guerra fria entre EUA e a Rússia, a situação para os artistas e intelectuais, de fato, se tornou das menos otimistas. Em vez de se investir contra o irracionalismo, o mundo se tornou ainda mais insano e violento. Pior, porque a idéia de que a ciência e a tecnologia seriam um instrumento para o desenvolvimento humano acabou sendo usada contra a própria liberdade. E nem mais o purismo, que enxergava no fazer artístico a expressão máxima da espiritualidade, nem o construtivismo, o racionalismo e o concretismo que entendiam que a arte deveria se aliar à industrialização, para que a massa consumisse ''objetos estéticos'', puderam deter o sofrimento da espécie no planeta. Bem-vindos à pós-modernidade, senhoras e senhores!
Indiferente a isso, muitas pessoas continuam preferindo se calar diante da situação e deixar que os artistas levem a culpa pelo mundo em que vivemos, como se a eles coubesse a salvação moral, espiritual e material de todos nós. Talvez, se é verdade que ''todo homem é um artista'', como profetizava Joseph Beuys. Ou, não mesmo, para aqueles que colocam que ''a arte está morta'', uma vez cumprido seu papel histórico.
No Rio de Janeiro, um crítico do jornal O Globo, dedica sua coluna à não compreensão da arte contemporânea, que, acredita, é desprovida de sentido. Em Londrina, o falso moralismo finge se escandalizar com um espetáculo de dança do Balé da Cidade, por suposto incitamento ao homossexualismo e até ao uso de drogas. Usam de discurso moralista para tirar proveito próprio da situação. Foi essa a arma primeira do fascismo na Itália, dos burocratas dedos-duros na Rússia pós-Lenin, dos nazistas na Alemanha, dos franquistas na Espanha e dos membros da TFP no Brasil, garantindo poderes à ditadura militar. É a censura de novo querendo calar o direito à expressão com ameaças populistas. Dizem ''pra que arte se o povo passa fome?'', ou que os artistas são uma elite e o que mostram ''é incompreensível para as massas''. Querem justificar o autoritarismo porque, na verdade, são contra as idéias, pois um povo que pensa não se deixa vender.
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