Talvez o que chamamos de contemporâneo, ou contemporaneidade, seja um não-lugar, uma ausência, uma tentativa pós-existencialista que torna presente a indefinição e a impermanência, onde tudo já foi dito e feito e não há mais como depender das referências de valores e identidades. O acúmulo de história e informação deu-se tão intensamente, como o sol olhado de frente, cegando nossas visões. Nada é bom ou mau em si, embora possa conter o mal e o bem ao mesmo tempo. Esta é a lição que a época nos ensina.
Embora anunciada só agora (mais por uma questão de datas do que de fatos), esta guerra a que assistimos pela mídia (sua arma mais devastadora), evidencia que nossa esperança no futuro, salvação da humanidade e redenção das diferenças por um padrão comum global devem ser cada vez mais relativizadas, senão mesmo jogadas fora, para que nenhuma ilusão se transforme em muletas de nossa existência neste mundo cheio de conflitos e diferenças. O que está em jogo, hoje, diz respeito tanto à ciência quanto à religião, já que a crença em uma ciência portadora de humanidades se esbarra na fé de um demônio a ser combatido. Quem diria que a ciência e com ela todo o chamado mundo civilizado estava se encaminhando para uma guerra santa?
Na arte, assim como na vida, a maneira de encarar tais fenômenos da época em que vivemos - já anunciada há um século pelo modernismo - tem sido a de se distanciar, cada vez com mais cautela, de uma certa linearidade discursiva, cuja mensagem é sempre a promessa de um mundo desprovido de asperezas, rugosidades e confrontos. Tão na contramão do que assistimos no dia-a-dia e talvez o único modo de enfrentar essa tentativa de assepsia estética.
Este novo existencialismo já não é mais aquele do pós-guerra, do tempo e do espaço oprimindo e corroendo a vontade e o desejo, como se fosse um exaustivo coito depois do gozo fatal. Agora ele engendra dentro do silêncio um ruído ensurdecedor, um vazio dentro da aparência do branco, uma aparente indiferença aos sentimentos, tornando as percepções muito mais intensas. As possibilidades de interpretação de conteúdos não se resumem só à aparência das formas, suportando leituras absolutamente diversas umas das outras.
Uma obra de arte agora, se assim ainda pode ser chamada, deve ser capaz de comportar as mais variadas visões, dialogando não só com as outras linguagens, mas, paradoxalmente, nos encaminhando ao sentimento mais profundo de estarmos no mundo independente de tempo e lugar, da história e do território. Sem a promessa de salvação ou redenção no final.
Utopia sem utopia, a única maneira da arte se colocar enquanto linguagem. A ironia não se volta mais contra a história, seja a história do homem ou da arte que o homem faz. A ironia agora é a de ainda nos mantermos vivos.
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