A luta contra a segregação racial criada pelo apartheid, que rendeu 28 anos de prisão a Nelson Mandela e o transformou num símbolo, é a parte mais conhecida da biografia do atual presidente sul-africano. Mas a proposta do filósofo Emir Sader, ao lançar ‘‘Vencer É Possível - Democracia sem Exclusão, Globalização com Soberania’’, é mostrar um Mandela além do apelo emocional de um homem que sofreu como mártir e venceu como herói mítico. O livro, lançado pela Editora Revan (192 páginas/R$ 19), reúne uma série de discursos do líder negro como presidente da África do Sul que revelam um Mandela estadista.
Os textos enfatizam a luta do presidente sul-africano juntamente com outros líderes do CNA - Congresso Nacional Africano - para estabelecer a democracia no país. Ele prega uma união entre todas as correntes políticas, defende os direitos de todos os cidadãos e deixa transparecer um otimismo constante em relação ao desenvolvimento do país.
Já no discurso de posse, Mandela usa uma linguagem quase poética para enfatizar as metas do governo e pregar a união durante o governo de transição. Isso fica explícito quando o estadista cita Frederick De Klerk, antecessor no cargo e antigo inimigo político, como uma figura importante no processo democrático sul-africano. Mandela também lembra Ingrid Jonker, uma poetisa branca que se indignava com a segregação no país a ponto de se suicidar, e até recita um poema da escritora sobre o massacre de negros em Sharpeville.
Um dos mais importantes discursos de Mandela contidos no livro é o feito na OUA - Organização de Unidade Africana - quando a África do Sul ingressou na entidade, em 1994. O estadista evoca Cartago, a cidade da Tunísia destruída pelos romanos no Século II, como uma referência aos dias contemporâneos. Mandela lembra a visão internacional da África: um continente de vítimas permanentes da fome e composto por mendigos à espera de ajuda dos países ricos.
Mandela usa este artifício para pregar a união entre os países africanos como a única forma de desenvolvimento. Além disso, faz apelos à comunidade internacional para o problema da fome e das guerras civis em Ruanda, Lesoto, Angola, Moçambique e Sudão. ‘‘Temos certeza de que os senhores hão de garantir que o interregno de humilhações está realmente restrito ao passado’’, finaliza o discurso.
Mandela também faz um balanço de seu governo em vários pronunciamentos no parlamento sul-africano. Em tom conciliador, o presidente conclama os parlamentares a participarem do principal projeto do governo: o PRD - Programa de Reconciliação e Desenvolvimento. Mesmo assim, Mandela reconhece que as divergências são necessárias em uma sociedade democrática. ‘‘Apresentar uma fachada de unidade seria artificial, não democrático e claramente pretensioso’’, acredita.
Como todo político que se preza, Mandela também apela para o populismo ao lembrar as conquistas da seleção de futebol do país na Copa Africana de Nações, e o título mundial da equipe de Rugby. Ele usa as conquistas para evocar o chamado novo patriotismo sul-africano. Em outro discurso, levanta oito questões principais que o país enfrenta, entre elas a estabilidade da democracia, o PRD e as relações internacionais. O livro traz também o pronunciamento de Mandela no aniversário de 50 anos da ONU, em que prega a melhoria de condições de vida para todos os cidadãos do mundo através da cooperação econômica entre as nações. O presidente sul-africano utiliza a mesma diplomacia ao receber o presidente americano Bill Clinton em primeira visita à África do Sul. Mandela agradece ao povo americano na contestação ao apartheid.
A compilação de discursos de Mandela em ‘‘Vencer É Possível’’ mostra o lado estadista do líder negro. E serve como um palanque político das idéias, projetos e reflexões de Mandela para a África do Sul.

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