Ur, a terra do patriarca
Cidade natal de Abraão, na antiga Mesopotâmia e atual Iraque, guarda tesouros históricos de valor inigualável
RUÍNASPórtico do que teria sido uma grande residência em Ur: sítio arqueológico é objeto de desejo de historiadores e admiradores da civilização mesopotâmica
Maranúbia Barbosa
Especial para Folha Turismo
Ele era jovem, recém-casado e habitava uma planície às margens de um rio. Nas terras de seu pai, cultivava legumes e cereais e pastoreava rebanhos de cabras e carneiros com seu irmão e seu sobrinho. Renegando o panteão de deuses das demais tribos vizinhas, era monoteísta. O deus único em quem acreditava ordenou que ele saísse de suas terras e partisse em busca de uma terra onde correria leite e mel. Ele tomou sua mulher, seus parentes, seu gado, seus pastores e rumou para o desconhecido. Montou acampamento na terra de Canaã, atual Israel, e entrou para história como o pai dos hebreus.
O homem do relato é Abraão, que viveu no século 19 a.C. Sua terra de origem é Ur, na antiga Mesopotâmia, onde atualmente se localiza o Iraque. No ano do Jubileu, quando cristãos de todo o mundo comemoram o aniversário de Jesus Cristo, todas as atenções estão voltadas para o cenário onde ocorreu a maior parte dos acontecimentos bíblicos, no Oriente Médio.
O papa João Paulo II viu frustrado seu desejo de beijar pessoalmente o solo de Abraão. O papa peregrino, assim como muitos ocidentais, não teve o privilégio de conhecer um lugar único, ponto de partida para as três maiores religiões do planeta judaísmo, cristianismo e islamismo.
A ausência do papa em Ur tem cunho político. A região está centrada em um território conturbado, palco de vários conflitos. Ur fica próximo à confluência dos rios Eufrates e Tigre, a poucos quilômetros da fronteira com o Kuwait. Além disso, a visita do papa poderia causar um desconforto diplomático, já que Iraque e Israel são inimigos declarados.
A Ur dos caldeus, como é chamada no livro de Gênesis, fica a cerca de 300 quilômetros ao sul de Bagdá, capital do Iraque. A Caldéia é o nome antigo de uma parte da Suméria, na Baixa Mesopotâmia, e estendida, depois, a toda a Babilônia.
A despeito da proximidade dos rios, que formam várzeas e propiciam a irrigação, o lugar é desértico. Debaixo de um sol escaldante, logo pela manhã a temperatura chega fácil aos 47 graus, mesmo no outono. Mas, um bom visitante não se deixa abater e segue pelo sítio arqueológico.
Os primeiros registros da existência da cidade remontam ao VI milênio a.C. Dessa fase ficaram cravados nos tijolos de barro os primeiros vestígios da escrita cuneiforme. A partir de 3000 a.C., sob o domínio dos sumérios é que a cidade floresceu. Esse período, que vai até 2200 anos a.C. é caracterizado pela existência de armas e adereços de metal e pedras preciosas. O Museu Britânico, em Londres, guarda boa parte dos acervos arqueológicos encontrados nas escavações.
Da dominação suméria restam os famosos túmulos reais, construídos a partir de câmaras abobadadas por onde se avança como em um poço. As peças funerárias extraordinariamente ricas como jóias, liras, harpas, elmos de ouro, estandartes decorados em fundo de lápis-lazúli dão mostras da grandiosidade da época e da opulência dos aristocratas. Os arqueológos também encontraram sinais da prática de sacrifícios humanos, fato considerado raro na civilização sumeriana.





