Universo feminino é desvendado pelo autor da obra
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por carlos Haag 
São Paulo, 22 (AE) - A intenção era das piores, mas há um pouco de justiça e verdade na alfinetada marota de William Faulkner definindo o colega de letras Henry James como "uma velhota simpática". Embora evitasse tocar fisicamente mulheres ao longo de sua vida, o autor de Daisy Miller, ao menos em seus livros, soube como dissecar a alma feminina - em especial, retratos de senhoras ianques -, na melhor tradição de Jane Austen e George Elliot. E não decepciona nem sequer no exercício literário (conto comprido ou romance curto?) de "A Herdeira", que já faz adivinhar a densidade de sua segunda fase.
Ladeada pelo pai egoísta e sarcástico e um pretendente arrivista e interesseiro, mesmo a insossa Catherine é digna do maior interesse para o leitor por causa de sua impressionante evolução interior. Que a transmuta de uma criatura incolor em uma mulher forte, que prefere abrir mão da vida a deixar-se levar pela hipocrisia social da Nova York (outra mulher nas mãos de James) provinciana e incipiente do início do século. Não sem razão, o escritor batizou sua novela com o nome da praça (Washington Square) por onde perambulava na sua juventude e demarcava ao seu redor os limites estreitos da futura metrópole.
Quando escreveu o romance, James vagava pela Europa, crente de que o Novo Mundo era muito neófito para inspirar grande literatura, pela sua escassez de tradição e história. O embate entre os dois mundos foi por um bom tempo o tema por excelência de suas novelas, na contramão do realismo (que ele abominava) da época e cada vez mais abstraídas da ação em prol da análise psicológica, da experiência de vida das protagonistas. Em geral, americanas excessivamente orgulhosas do ridículo de seus valores e de sua liberdade. É daí que provém a rigidez de Catherine, caída de amores pelo aventureiro Morris (boba como toda americana que se preza, ao menos na visão preconceituosa inglesa daqueles tempos), mas que, uma vez livre da tirania paterna (a única aceitável), não está disposta a aceitar outra restrição de seu american way of life e freedom. Quando Morris bate à sua porta, não há resposta da filha que acaba de perder o pai que a impediu de casar-se.
É curioso observar como James, um crítico dos EUA, mesmo sem querer, tece um elogio ao que, no futuro, fez a virtude das grandes novelas americanas: a grandeza de caráter ianque adquirida pelo sofrimento. Longe de uma daquelas espirituosas protagonistas de uma novela inglesa qualquer (que tiraria de letra os arroubos do sr. Towsend), Catherine precisa sofrer para crescer e ganhar, por fim, a altivez digna de uma nova-iorquina de velha cepa. A mais inglesa das "velhotas simpáticas" americanas não resistiu aos encantos bárbaros de seus conterrâneos caipiras.


