Universo em fantasia
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de março de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
Antes da escritora J.K. Rowling fazer sucesso com os romances protagonizados por Harry Potter, muita água já havia rolado sob a ponta da literatura fantástica infanto-juvenil. Um gênero que nunca foi apreciado apenas por crianças, mas por leitores de todas as idades.
O pioneiro sem dúvida foi o escritor inglês J.R.R. Tolkien (1892 - 1973) com a trilogia O Senhor dos Anéis. Apesar do sucesso atual, impulsionado pela adaptação feita para o cinema, a obra foi escrita há mais de 50 anos entre 1936 e 1949.
Depois de Tolkien, surgiu um outro escritor inglês trabalhando com competência no gênero, o professor Philip Pullman. O primeiro volume de sua trilogia Fronteiras do Universo começou a ser publicado em 1995, recebendo vários prêmios literários. O último volume, por exemplo, foi a primeira obra infanto-juvenil a receber o prêmio literário britânico Whibread.
O primeiro volume de Fronteiras do Universo foi publicado no Brasil em 1998 pela Editora Objetiva com o título A Bússola Dourada (Northerhn Lights). Em seguida vieram A Faca Sutil (The Subtle Knife), lançado pela mesma editora em 1999 e A Luneta Âmbar (The Amber Spyglass) que acaba de chegar às livrarias, fechando a trilogia.
Mesmo apresentando uma narrativa mágica, muito próxima daquela desenvolvida por Tolkien, Philip Pullman declara que suas influências para criar os três volumes de Fronteiras do Universo foram outras. Entre elas, destacam-se três: John Milton (1608 - 1674) com o clássico Paraíso Perdido; as obras de William Blake (1757 - 1827); e um texto de Heinrich von Kleist sobre o teatro de marionetes (On The Marionette Theatre).
Se Tolkien é um verdadeiro clássico na consistência do gênero, Philip Pullman é seu grande herdeiro, embora renegue tal rótulo. E J.K. Rowling, e seu Harry Potter, uma fraca tentativa de alcançar a plena fantasia através da fachada, utilizando para isso uma frágil substância literária.
Embora apresente, como todos, o arquétipo da luta de forças entre o bem e o mal, a trilogia de Pullman vai além. Não apresenta diretamente o valor de cada uma das forças, mas o que existe por trás delas e o valor que cada ser, de acordo com sua história pessoal, atribui a elas.
Seria difícil descrever, em poucas palavras, a história apresentada nos três volumes de Pullman. A quantidade de aventura, drama, ação, suspense, adrenalina e reflexões é imensa. Os heróis dos romances, a menina Lyra e o garoto Will, atravessam dezenas de mundos e universos, enfrentam guerras e situações limites, convivem com uma ampla gama de seres fantásticos, acompanham a própria transformação de crianças em adolescentes, tudo com tamanha intensidade e velocidade que são impelidos a atingir a maturidade de valores morais que grande parte dos adultos não alcançou.
Entre as centenas de argumentos levantados nos três livros, especialmente em A Luneta Âmbar, é o papel da cultura judaico-cristã, na imagem da igreja, em seu desenvolvimento como poder absoluto. As instituições, por exemplo, frente a não compreensão do nascimento de um novo momento da humanidade, são capazes de atitudes vis para perpetuar o poder. Sob a suspeita da imagem de uma nova Eva e um novo Adão infantis, não medem meios para assassiná-los numa tentativa de evitar a simbologia do pecado primordial.
Em outras palavras, demonstra como diante da ameaça da queda do poder, ou mesmo a perpetuação do poder, as forçar institucionais são capazes de qualquer atitude. Em A Luneta Âmbar, Pullman apresenta o deus monoteísta velho e cansado. E introduz uma sutil mensagem libertária, onde a reformulação do conceito de humanidade, bem como de todos os seres vivos, deve ser pensada quando a Terra entra em perigo, em estagnação e esterilidade.
Em suas histórias, Philip Pulman cria mundos paralelos onde seres humanos e seres fantásticos dividem o mesmo espaço. As almas das pessoas por exemplo, chamadas daemon (em latim, espírito, seja ele do bem ou do mal), aparecem de maneira visível em forma de animais. São verdadeiras companhias íntimas que acompanham as pessoas durante toda a vida. Se eles morrem, o dono morre. Se o dono morre, eles também morrem. Durante a infância, os daemon mudam de forma a cada situação, assumindo a forma de bichos distintos. Na idade adulta assumem uma única forma, a de um animal correspondente à personalidade da pessoa.
O diferencial da trilogia de Pullman em relação a outras obras do gênero é a narrativa ao mesmo tempo em que apresenta uma fantasia exuberante, a remete aos princípios da realidade histórica. Em suas entrelinhas, mostra um painel dos dias de hoje de maneira mágica, sem poupar as dores em detrimento dos prazeres.
Mesmo sendo uma obra fantástica, a trilogia, com a conclusão de A Luneta Âmbar, se revela uma história de amor. O amor entre os seres humanos e entre todas as formas e energias possíveis do universo.
Serviço:
- A Luneta Âmbar (Fronteiras do Universo Volume 3) , de Philip Pullman, Editora Objetiva, tradução de Ana Deiró, 576 páginas, R$ 44,90.
- A Faca Sutil (Fronteiras do Universo Volume 2), de Philip Pullman, Editora Objetiva, tradução de Eliana Sabino, 372 páginas, R$ 25,00.
- A Bússola Dourada (Fronteiras do Universo Volume 1), de Philip Pullman, Editora Objetiva, tradução de Eliana Sabino, 419 páginas, R$ 27,00.
Estamos mortos? - perguntou Will para o barqueiro.
Não faz diferença - respondeu ele. - Alguns vieram para cá sem jamais acreditarem que estavam mortos. Insistiram durante todo o caminho em que estavam vivos, que era um erro, que alguém pagaria quando estavam vivos, pobres almas; vidas cheias de dor ou grande infortúnio; mataram-se em busca de uma chance de terem um abençoado descanso e descobriram que nada havia mudado, exceto para pior, e que dessa vez não havia saída; você não pode se fazer voltar à vida. E houve outros tão fracos e doentes, bebês pequenos, às vezes, que mal tinham nascidos entre os vivos antes de descerem aos mortos. Já remei este barco com um bebê pequeno, chorando em meu colo, muitas, muitas vezes, bebês que jamais souberam a diferença entre estar lá em cima e aqui embaixo. E os velhos também, os ricos são os piores, rosnando, xingando e me amaldiçoando, me insultando e berrando: o que eu pensava que era? Eles não tinham ganho e juntado todo o ouro que podiam coletar? Eu não aceitaria um pouco agora, para levá-los de volta para a costa? Iriam mandar a polícia atrás de mim, tinham amigos poderosos, conheciam o Papa e o Rei disso e o Duque daquilo, tinham posição para garantir que eu seria punido, castigado... Mas eles souberam a verdade no fim: a única posição em que estavam era no meu barco, indo para a terra dos mortos, e quanto aos reis e papas, também acabariam por aqui, quando chegasse a vez deles, mas cedo do que desejavam.
(Fragmento de A Luneta Âmbar)


