UNIVERSIDADE FM FAZ 10 ANOS E COMEMORA COM SHOW
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terça-feira, 24 de outubro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Uma geração inteira de compositores foi deletada de rádios, tevês e circuito dos grandes shows ao longo dos anos 80 e 90. Distantes da popularidade, muitos até hoje amargam a exclusão pelo mercado, ainda que ostentem prestígio entre os críticos. Outros impuseram seus talentos e já desfrutam de alguma regalia nas grandes gravadoras.
O cantor, compositor e arranjador paulista Celso Viáfora parece se localizar na transição entre os dois estágios. Aclamado pelos melhores críticos do país, entre os quais Tárik de Souza e Mauro Dias, ele se apresenta hoje em Londrina num show comemorativo aos 10 anos da rádio Universidade FM, a única na cidade que executa suas canções.
O show começa às 21 horas no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 240). Viáfora vai mostrar o repertório dos CDs Paixão Candeeira (Dabliú, 1997) e Cara do Brasil (RGE/Jam/Eldorado, 1999), além de cantar sozinho ao violão algumas de suas parcerias recentes com Ivan Lins. No palco será acompanhado por Cisão Machado (contrabaixo), Fábio Torres (teclados), Edu Ribeiro (bateria); Tel da Cuíca e Guelo (percussão).
Já estamos completando 50 shows dessa turnê diz ele durante entrevista por telefone. Samba, baião, reggae, toadas e baladas pop compõem o cardápio rítmico de sua obra que inclui ainda além dos discos citados o CD Celso Viáfora (Outros Brasis/Dabliú, 1992) e o LP em vinil Trocando Figura (Copacabana, 1986) gravado em parceria com César Brunetti, Jean e Paulo Garfunkel.
Sem jamais ter emplacado nas paradas, tornou-se conhecido com a música Não Vou Sair, que ele chama de a minha Garota de Ipanema em referência ao número inflacionado de gravações obtido pela composição de Vinicius de Moraes e Tom Jobim. A cada ano, recebo dois ou três discos independentes trazendo a minha música conta ele.
A faixa de seu CD homônimo estourou primeiramente em Belém do Pará, Manaus e Macapá para em seguida ganhar as vozes de cantores da noite reproduzindo a trajetória dos grandes sucessos do começo da era do rádio. Foi gravada por, entre outros, Celia, Vicente Barreto e Nilson Chaves. Sua veia de compositor, aliás, tem sido explorada por uma galeria de admiradores que inclui Ney Matogrosso, Vânia Bastos e Fafá de Belém.
Desde fevereiro, engatou uma parceria com Ivan Lins, com quem já assinou 15 novas composições. Uma delas, lembra ele, foi gravada pela cantora-apresentadora Eliana. A música ficou mais com a nossa cara do que com a cara dela observa. Viáfora, dizem, está a um passo de sua consagração definitiva para além do gueto.
No show você vai fazer uma retrospectiva de seus discos ou vai mostrar apenas as músicas do último álbum Cara do Brasil?
Vou cantar o repertório do Cara do Brasil, algumas músicas do Paixão Candeeiro (disco anterior), além de abrir um espaço no meio do show onde estarei apenas com o violão. Nesse quadro, talvez eu mostre minhas parcerias com o Ivan Lins, com quem venho compondo desde fevereiro. Já fizemos uma quinze músicas, quatro delas entraram no último CD dele. Uma outra, uma canção de amor, foi gravada pela Eliana a pedido do produtor Guto Graça Mello. A música ficou mais com a nossa cara do que com a cara dela.
Seu último disco traz diversos ritmos incluindo samba, baião, galope, baladas. A idéia de chamá-lo Cara do Brasil foi caracterizar a multiplicidade da identidade musical brasileira?
Esse título tem dois sentidos. Por um lado, ele se baseia na letra de minha música A Cara do Brasil gravada pelo Ney Matogrosso e que é justamente essa tentativa de teorizar a respeito da identidade do país. A música mostra que a resposta está nos opostos e que gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho. O segundo significado do título diz respeito a um cara do Brasil, de um músico que reflete a poliritmia do país.
Alguns críticos definem seu trabalho como herdeiro da tradição musical paulistana. Outros já vêem influências de compositores cariocas como Chico Buarque, Aldir Blanc, Guinga. O que você acha dessas avaliações?
Não tenho preconceitos em dizer que sou tão apaixonado pelo Rio quanto por São Paulo. Tenho sotaques das duas cidades. Nasci em São Paulo mas sempre passei férias no Rio. Costumo dizer que sou tão corinthiano quanto salgueirense fanático. Faço parte da ala dos compositores da escola, na qual desfilo há três anos. Na música Auto-Retrato, a que fecha meu último disco, digo que Tenho a Bahia pelo meu parceiro / Rio de Janeiro: o Salgueiro é de lá / O resto é tudo babaquice de bairrista / Eu sou paulista, meu / e vivo em todo lugar. Meu primeiro disco (Celso Viáfora) tinha muitas influências de Belém e dos ritmos amazonenses. O segundo (Paixão Candeeira) era mais um canto da amor à alma da canção brasileira e trazia muitas referências ao Rio. O terceiro (Cara do Brasil) tenta buscar a gênese de São Paulo.
Você tem fama der ser papa-festivais. O que você achou da tentativa da Globo de ressuscitar os antigos festivais da Record. Você acha que as músicas classificadas representaram dignamente a diversidade da música popular brasileira atual?
Acho que o prazo para as inscrições foi curto. Muita gente deixou de participar e, pelo passado da Globo, muitos compositores ficaram com um pé atrás. O resultado não agradou a ninguém. Acho que o júri errou, apesar de ser formado por críticos respeitáveis. E ao contrário do que alguns falaram, esse festival não mostrou nada da nova música popular brasileira. Foi, talvez, o festival mais fraco de todos já realizados. Coincidência ou não, a Globo sempre organiza um evento do gênero quando a música está em ebulição. Na época da vanguarda paulista com Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção etc, a Globo fez um festival que acabou aniquilando toda aquela movimentação. Agora ocorre a mesma coisa. Coincidência ou não, a Globo decidiu fazer um festival justamente no momento em que a música está sendo renovada por artistas como Lenine, Zeca Baleiro, Chico César, Guinga, Nonato Luiz todos eles, compositores que estabeleceram suas carreiras independente da Globo.
Em Londrina, suas músicas são executadas apenas na rádio Universidade FM. Como você reage diante do boicote generalizado das chamadas rádios comerciais?
Em quase todas as cidades, há sempre uma rádio tocando música brasileira de qualidade. Em todo o país, as emissoras líderes de audiência a excluem da programação. Já sofri muito com isso, especialmente na época em que prevalecia o jabá. Hoje em dia, quando eu vejo os artistas que estão fora das rádios, percebo que estou em boa companhia.
- Show de Celso Viáfora. 21 horas. Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 240). Ingressos a R$ 10 (estudantes pagam meia entrada), à venda na Universidade FM (campus da UEL), Malhas Catarinenses (Rua Pio XII, 208) e Música e Cia (Shopping Catuaí).


