Sabe aquela premissa de que várias cabeças pensam melhor do que uma? Tem gente levando isso ao pé da letra em Curitiba e transformando reunião de amigos em coletivos que ganham cada vez mais força e aparecem como entidade e até como empresa artística.
O escultor Juan Parada, um dos fundadores do Coletivo Interlux Arte Livre, um dos mais ''antigos'' e conhecidos de Curitiba, é categórico ao defender o conceito. ''O Interlux existe desde 2002, mas só recentemente pudemos assumir essa denominação. Antes éramos como uma colcha de retalhos, um agrupamento de ideias individuais''. Com o tempo e maturidade, o grupo, formado por dez pessoas de áreas diferentes, foi aprendendo a ouvir e aceitar propostas para uma finalidade única.
Foi o que aconteceu, por exemplo, na definição da obra Grade sobre Grade, que está exposta dentro da programação da 5 Bienal VientoSul, em Curitiba. Independentemente do resultado da obra, o grupo comemora um feito que antes parecia distante: todos concordaram com o projeto final. ''Chegamos num ponto em que questionamos diversas coisas, com ideias coletivas, mas o trabalho final é único'', comemora Juan. ''Nosso coletivo é mais do que um trabalho. Nos tornamos uma família'', diz.
Com ideais semelhantes, os participantes encontraram uma maneira de ocupar espaços públicos e despertar a atenção da população para temas variados. Uma das atividades mais conhecidas são as bicicletadas que eles promovem periodicamente e que estão atreladas a palestras e debates sobre o desenvolvimento sustentável e meios de transportes que não agridam ao meio ambiente.
''É um ambiente bacana para trabalhar. Em todos os setores convencionais existe a disputa. No coletivo a gente se ajuda'', enfatiza o artista multimídia Bruno Machado, 27 anos. O designer Tiê Passos compartilha a opinião e exalta a finalidade do grupo de provocar a sociedade, como na performance ''Música para sair da Bolha'', em que os integrantes do coletivo se reúnem e fazem concertos em pleno trânsito. ''É para fazer pensar sobre o uso abusivo dos veículos e sobre a melhor forma de se locomover'', explica o artista.
E apesar de terem ganho patrocínio para a obra Grade sobre Grade, os integrantes do grupo são unânimes ao afirmar que o respaldo financeiro não está nos planos do coletivo. ''Tudo que a gente ganha é investido em novas ações'', conta o artista plástico André Mendes.
No entanto, reunir pessoas com possibilidades profissionais diferentes para potencializar o trabalho e obter retorno financeiro é exatamente o objetivo de outros coletivos. Foi pensando em otimizar a prestação dos serviços dela, do marido, o arquiteto Guilherme Santana e do produtor André Azevedo, que a atriz Karla Fragoso fundou em 2007 o Coletivo Atalho, hoje referência em produção de moda, figurinos de teatro e eventos em Curitiba. Além do trio fundador, várias outras pessoas prestam serviços para o coletivo, de acordo com a demanda dos trabalhos.
''Uma cabeça só demora mais para pensar em soluções. Com várias, fica mais fácil discutir o processo de trabalho'', acredita Karla. Além de exposições e eventos de moda variados, o Atalho já assinou figurinos para espetáculos com direção de Paulo Biscaia. O coletivo também promove workshops de moda e atua nas áreas de artes cênicas e visuais.
Para o pessoal do Coletivo Rasputines, também de Curitiba, a ideia deu tão certo que o grupo está criando uma empresa com o mesmo nome. O gravurista Dox, a designer de moda Maria do Carmo, o fotógrafo Bernardo Contezini, o artista plástico Lucas Lima e o videomaker Jonas Emilião estão juntos desde 2003. Eles assinam cenários, vídeos e performances visuais para bandas musicais, um de seus principais trabalhos. No currículo, produções para a banda gaúcha Júpiter Maçã e para a curitibana Mixtape. Agora estão finalizando a produção de palco, vídeos e um clipe para uma outra banda curitibana. O próximo passo é profissionalizar o grupo. ''Já estamos montando uma empresa para isso'', comemora Emilião.

mockup