Uniformizadamente elegante
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segunda-feira, 26 de maio de 2008
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Sabe quando a gente gosta muito, muito de alguma coisa, a ponto de querer tornar todas as coisas como ela? Quem já não foi criança e quis que todos os dias fossem domingos ou que todas as refeições fossem lasanha? É mais ou menos isso que aconteceu com Bettina e Eddy Marcos. Eles estão realizando um antigo sonho - transformar canções clássicas, de várias épocas e estilos, em bossa nova. O CD de estréia, Bossa Project, acaba de ser lançado pela Circuito Musical.
Se você pensa que já viu esse filme, está quase certo. Nos anos 80, a Royal Phillarmonic Orchestra gravou Hooked on Classics. Beethoven pode ter se contorcido no túmulo ao ouvir a Quinta Sinfonia em ritmo de discoteca, mas muita gente adorou. Foi um sucesso e, segundo Louis Clarke, o maestro que idealizou a aventura, a iniciativa também serviu para 'popularizar' a música erudita. Anos depois, um quarteto de violoncelos, o Apocalyptica, fez o contrário e gravou o heavy metal do Mettalica. Foi quase uma unanimidade - de críticas negativas.
No caso de Bettina e Eddy, o CD Bossa Project dificilmente vai levantar tanta polêmica. O trabalho é bem-feito, os arranjos são bonitos e o resultado, às vezes, funciona. É o caso de ''I've got you under my skin'' e ''The Shadow of your Smile''. As músicas ficaram lindas. Outras, no entanto, acabaram esquisitas com a nova roupagem, como se Cássia Eller de repente saísse por aí com um terninho Armani... Se a baladinha ''Fool on the hill'', dos Beatles, se adaptou bem ao ritmo brasileiro, o mesmo não aconteceu com ''Nobody Does it Better'', que ganhou até uma cuíca no arranjo e acabou irreconhecível.
Bettina conta que eles fizeram uma pesquisa longa e detalhada para escolher as canções do CD. ''Chegamos a trabalhar cerca de 80 músicas'', lembra ela. Eddy confessa que o trabalho não foi fácil: ''Foi um processo de desconstrução e reconstrução de arranjos. Tiveram algumas músicas que não entraram nesse repertório porque senti que nenhum arranjo feito para bossa nova caiu bem nelas''. Os dois iniciaram o projeto em 2005. Bettina é professora de técnica vocal e Eddy Marcos é violonista e maestro. Ele já trabalhou com o cantor Fábio Junior e assina os violões de todas as canções.
Muita gente define bossa nova como ''chique''. Um adjetivo estranho para música? Talvez, mas compreensível quando se observa que a bossa nova não tem gritos, nem staccatos, ou explosões instrumentais. Já reparou como as pessoas usam bossa nova como música de fundo para inaugurações de lojas, salões de cabeleireiros e recepções artísticas? A bossa nova é tranquilizante, não atrapalha nenhuma conversa, não interrompe os pensamentos. Às vezes, esse é justamente o problema. Em algumas faixas do CD de Bettina e Eddy, as canções perderam completamente a expressão, como ''Per Amore'', a mais nova do repertório, lançada em 1997 por Andrea Bocelli. A bossa deixa tudo uniformizadamente elegante.
Para fazer justiça, é preciso dizer que se tem uma coisa no CD que combina perfeitamente com bossa nova é a voz de Bettina, sedosa, aveludada e afinadíssima. De qualquer maneira, é uma experiência interessante ouvir uma coisa tão americana como Bee Gees, (''How Deep is your Love''), e Barry Manilow (''Could it be Magic''), num ritmo tão brasileiro! Faz a gente lembrar que uma roupa nova, um novo arranjo, muda sim, e muito, qualquer referencial. Para melhor, ou pior. São 14 músicas para você ouvir, e decidir.
SERVIÇO
- Bossa Project
Gravadora - Circuito Musical


