Todos sabemos que o trabalho realizado em grupo rende mais do que aquele feito individualmente, quando se trata, obviamente, de processos que fazem parte de uma rede de conexões interrelacionadas, dependentes uma da outra. Criar, produzir, mostrar, vender, comprar, etc. envolvem uma série de especializações que uma pessoa só não consegue dar conta. Claro, há alguns tipos de associações também que não levam a nada pela sua desorganização interna, falta de objetivos comuns entre os participantes, comprometimento com o poder que deveriam fiscalizar ou mesmo movida por interesses comprometedores da ética.
De uns tempos para cá, a sociedade tem deixado o traço conformista e individualista de achar que as coisas não mudam e reivindicado um direito que antes creditava somente às autoridades, principalmente as políticas. Não fosse a pressão da sociedade, não teria havido a queda de presidente, de prefeitos, de políticos e servidores públicos corruptos, acostumados a tratar os interesses da população de acordo com seus interesses privados. A verdade é que a sociedade civil descobriu que a organização potencializa o esforço individual na luta por seus direitos, e não faz menção de parar. Melhor assim.
No campo específico da arte, também é assim que o quadro vai se compondo. Com a falta e precariedade de espaços e meios para criar e mostrar seus trabalhos, muito artistas vêm, ao longo destes anos todos, buscando maneiras criativas de desenvolver suas estratégias de ação e, assim, transformar inclusive as instituições e a própria maneira de se pensar o fazer artístico. Se os espaços oficiais como salões, galerias e museus não conseguem abrigar as poéticas potencialmente radicais que são produzidas, ou o grosso do que se produz hoje no Brasil. Se as academias, as faculdades de arte não possuem equipamentos, pessoal qualificado, biblioteca atualizada, se não permitem acesso à maioria, então é preciso inventar maneiras de produção fora das instituições convencionais. E elas estão se proliferando. Buscando ou não patrocínio, incentivos de leis e outros programas que começam a dar sinais de interesse por arte de maneira mais efetiva, ajudam a comprovar o velho chavão de que ''a união faz a força''.
Em vários locais do Brasil se aponta como tendência o agrupamento de artistas capazes de se auto-agenciar e, de uma maneira geral, tornar mais visíveis seus trabalhos individuais, além de atuar com mais eficácia em meio às suas próprias comunidades. Celebrados pelas alteração que produziram no cenário artístico de seus ambientes locais, grupos como o Agora-Capacete do Rio de Janeiro, o Espaço Torreão de Porto Alegre, o grupo Atrocidades Maravilhosas também do Rio, o Grupo Camelo, de Recife, o Projeto Linha Imaginária, reunindo artistas de todo o Brasil, o espaço Alpendre, de Fortaleza e o APIC (artistas patrocinando instituições culturais) são algumas das associações de artistas e produtores atuantes no cenário nacional e exemplos da multiplicação destes agentes como forma de resistência cultural à ditadura e pasteurização mercadológica da arte e da cultura em tempos de globalização. A atuação desses grupos tem lhes rendido prêmios e patrocínios importantes no cenário nacional, como convites para participar de diversas mostras no Brasil e no exterior, apoios de projetos de lei, estímulos da Petrobrás Artes Visuais, etc.
A mostra Panorama deste ano, por exemplo, em cartaz no MAM do Parque Ibirapuera, em São Paulo - que pretende ser um mapeamento da produção contemporânea - traz esta discussão à tona, na medida em que privilegia essas mediações. Em um livro, que funciona com extensão da mostra, essa idéia da união de artistas e agentes de arte em torno de grupos e associações, demonstra que aquilo que parecia impossível até pouco tempo atrás, dá sinais que avança, cada vez mais, fortalecendo propostas e abrindo novos caminhos.


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