São Paulo, 28 (AE) - Se é impossível agradar a gregos e troianos, o filósofo alemão Herbert Marcuse (1898-1979) provou que é muito fácil desagradar a ambos: em 1969, ao mesmo tempo que recebia ameaças de morte da organização racista e direitista Ku-Klux-Klan, o autor de "Eros e Civilização" era difamado pelo "Pravda" soviético, que, em editoriais espumantes, o chamava de "lobisomem" e, sem muita imaginação, de "agente da CIA e do imperialismo". Morto há 20 anos, o homem que incendiou a imaginação dos estudantes de todo mundo durante o Maio de 68 e em sua expansão latino-americana (até no Brasil) foi apagado da memória de todos.
Ou quase, pois a Editora da Unesp, homenageando as duas décadas de sua morte, acaba de lançar "Tecnologia, Guerra e Fascismo" (374 págs., R$ 35,00), reunião de textos, em sua maioria inéditos, escritos por Marcuse na década de 40 e bem no espírito de sua ligação com a chamada Escola de Frankfurt (criada, aliás, por ele, nos anos 20, ao lado de Adorno e Horkenheimer, entre outros). Idéias fora do lugar e do tempo? "Como a nossa sociedade está à beira de outra reviravolta, resultante da globalização acelerada e da concentração de poder e riqueza, algo que trará consequências políticas, os escritos de Marcuse podem servir de lição para pensarmos o futuro", disse Peter, filho do mestre, em entrevista recente.
Afinal, se ele estava certo sobre o destino totalitário inexorável que aguarda a sociedade tecnológica em qualquer tempo
talvez esteja na hora de voltar ao guru da juventude dos anos 60. Que, infelizmente, falava muito sobre ele, mas não o lia. Aliás, só depois de o movimento estudantil estourar em Paris é que se traduziram alguns de seus livros para o francês. O que não impediu Daniel Cohn-Bendit (que, agora, prefere desprezar a influência de Marcuse) de dar o motto da época, o "é proibido proibir", a partir das idéias do pensador. "Marcuse é nosso mestre e a luta por Eros é a luta política", gritava outro líder do movimento, Rudi Dutschke.
A união do filósofo do real ao deus mitológico não era fortuita. Um dos pontos centrais das teorias marcusianas era um amálgama de conceitos tirados de Marx e Freud, usados para dissecar a repressão do capitalismo industrial que impedia, acreditava, o indivíduo de desfrutar de sua liberdade política, jogando-o no consumismo irrefreável e reprimindo seu pensamento. Se, hoje, essas críticas parecem ingenuamente saídas por entre as barbas de um hippie perdido no tempo, elas foram, em verdade, fruto do longo desenvolvimento intelectual de Marcuse. Nascido em Berlim, em 1898, em uma família de judeus cultos, o jovem Herbert, aos 20 anos, aderiu aos sociais-democratas, mas desencantou-se com partidos quando seus partidários jogaram o cadáver de Rosa de Luxemburgo no Rio Spree. Ao contrário do esperado no futuro incendiário de imaginações esquerdistas, trocou filiações e práxis no Partido Comunista por artigos densos na revista "Gesellschaft" e, em 1922, por uma tese sobre Hegel (que em Razão e Revolução quis mostrar como o rastilho de pólvora detonou o marxismo) com Heidegger. O orientador foi, depois, fonte de desgosto para Marcuse, que tentou, em vão, fazê-lo retratar-se por suas simpatias nazistas.
Preferiu declinar do convite para ser seu assistente e reunir-se a um grupo de intelectuais na República de Weimar e fundar a Escola de Frankfurt, círculo privilegiado de pensadores marxistas. Fugindo de Hitler, refugiou-se, com Adorno na América, onde lecionou em Boston, apenas celebrado por um pequeno grupo como um especialista em Hegel. Marcuse só se guardava, preparando-se para jogar, em 1955, a sua maior bomba, "Eros e Civilização". Se, para Freud, civilização era repressão, para Marcuse a civilização moderna o era em dobro. Para combater isso, ressuscitou a utopia, tomando de empréstimo a busca da liberdade social individual, de Marx, e juntando-a ao princípio do prazer do pai da psicanálise. Ou seja, sem libido feliz, não adiantam revoluções.
O homem, é, assim, um ser apenas unidimensional, prisioneiro de uma sociedade totalitária que burocratiza as relações. Para chegarmos à plenitude, dizia Marcuse, e conquistar a liberdade e a felicidade, precisávamos de Eros, a fonte de vida. Marx não imaginaria em suas leituras londrinas que o homem de seus sonhos emergiria de um ser liberto da repressão sexual. Já lhe bastava preocupar-se com a empregadinha que deu a Engels em casamento. Os soviéticos, é claro, não gostaram dessa história de sexo e luta. Revolucionários orgulham-se de ser castos, não é? Mas no centro da ira bolchevique contra Marcuse estava uma crítica mais profunda. Se as sociedades só mudariam por meio de Eros, então de que valeu o esforço do camarada Lenin em tomar o Palácio de Inverno?
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já alertava para a deturpação russa dos conceitos marxistas, transformados em ideologia para inglês ver. Genial, atacou o leninismo, sem macular Marx. Era um intelectual de mão cheia. Por isso, causou surpresa no velhinho o furor juvenil por suas idéias nos anos 60. "Meu pai nunca quis ser um líder dos jovens e preferia, antes, ser um mentor que se concentrava na substância das coisas e não interferia nas ações estratégicas", explica Peter Marcuse. Mas era tarde e seu nome já era urrado nas assembléias em palavras de ordem, ao lado dos "emes" de Marx e Mao, transformado em profeta de filosofias libertárias que desprezavam a tal sociedade civilizada que ele provara ser uma farsa.
No Brasil, ganhou um especialista inusitado, o general Moacir de Araújo, que afirmava tê-lo estudado durante cem horas e chegado à seguinte conclusão: "Ele é responsável pelo sexo, pela porcaria, pelo descrédito das autoridades, pelo uso do anticoncepcional, de alucinógenos e pela incidência do palavrão". Não se pode negar o esforço intelectual do ilustre militar. Mas gente decente percebeu seu valor. Peter Weiss, por exemplo, dizia que Marat-Sade era devedora das leituras de Marcuse. O filósofo também sempre foi adversário feroz do irracionalismo e atacou, publicamente, o terrorismo. Só acreditava no poder de transformação dos jovens, a quem deixou este recado perene: Sejam realistas: desejem o impossível".

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