Quando levava bronca da mãe, a pequena Janete prestava atenção era na voz, no som que chegava furioso até ela - e se esquecia de ouvir as palavras. Essa ''desatenção'' (que geralmente motivava outra bronca), porém, acabaria levando a artista sonora, docente e hoje diretora da Casa de Cultura da UEL, Janete El Haouli, para uma profunda pesquisa sobre os significados da voz.
Janete embarca hoje para a Itália, onde participa das celebrações dos 30 anos de morte de Demetrio Stratos. Ela é autora do único livro existente sobre a obra do músico mediterrâneo (nascido no Egito, filho de gregos e que morou metade de sua vida na Itália) que revolucionou o modo de se enxergar, ouvir e sentir a voz. ''Demetrio Stratos - em busca da voz-música'' é resultado de sua pesquisa de mestrado na Universidade de São Paulo, concluída em 1993. O livro foi lançado na Itália em 1999 pela Auditorium Edizione, e já está na sexta edição. No Brasil, a obra foi lançada em 2003. Três anos depois, foi traduzida para o espanhol e editada no México pela Conaculta e Rádio Educación.
Mas por que o interesse pelo trabalho desse músico praticamente desconhecido por aqui? ''Eu soube de Demetrio por meio de uma revista francesa sobre John Cage e fiquei fascinada com o pensamento dele, as provocações que ele fazia sobre a voz'', conta Janete, citando uma das frases instigadoras de Stratos: ''A voz na música hoje é um canal de transmissão que não transmite mais nada''. ''E isso vai além da música. A voz, na comunicação falada, é tratada de forma automatizada, mecanicista. A gente acha que está comunicando por meio das palavras e deixa de escutar o que está aquém das palavras. A voz, o som, emoção, timbre, textura, a essência que fica no ouvido'', reflete.
A jornada de Demetrio pelas infinitas cavidades da voz começou com uma simples observação de sua filha Anastassia balbuciando os primeiros sons. ''Ele percebeu que a criança, conforme adquire a linguagem, perde o som. Primeiro ela captura/capta tudo, depois vai havendo uma redução da capacidade de escuta em vários sentidos. Há uma perda auditiva e vão atrofiando os elementos de percepção'', enuncia a pesquisadora, ressaltando que, conforme se aprende o significado das palavras, vai-se deixando de escutar o som que as gera.
Demetrio foi a pessoa que primeiro se lançou a essa reflexão, e de maneira mais intensa, no começo da década de 1970 - depois de conquistar fama internacional com o grupo de rock progressivo Area. Através de exercícios intensivos, desenvolveu sua capacidade de emissão vocal de maneira tão extremada que ainda hoje vem sendo objeto de estudos científicos. Como bem demonstra o CD que acompanha o livro de Janete, o músico explorava a voz com tamanha versatilidade que às vezes soava como outro - uma mulher, um bicho ou mesmo uma máquina. ''Ouvi-lo não é fácil. Traz uma carga de estranhamento, não tem como ficar passivo ou acomodado'', reconhece Janete, para chegar à exata definição: ''É uma voz que pergunta. Podem dizer 'isso não é voz', ou 'isso eu também faço'. Então faça. Mas por quê?'', instiga a musicista, explicando que o trabalho de Demetrio pede que se tenha uma nova atitude em face do som. ''Te provoca a pensar: o que é voz? isso é voz?''
Para superar os limites da própria capacidade, o artista foi estudar técnicas e simbologias com monges, povos indígenas, pigmeus africanos e outros, procurando entender o significado da voz para essas culturas. ''Não é mero malabarismo técnico. Demetrio lança e consolida o conceito de voz-música, que significa a possibilidade infinita de sons que podem ser emitidos pela voz. E mostra que, se perdemos, podemos recuperá-la'', analisa.
O artista sonoro morreu precocemente, aos 34 anos, mas muitos trabalhos de música contemporânea - e dança, e teatro - mostram que suas reflexões têm tido desdobramentos. ''Ele fez isso não para ser imitado, mas para refletir sobre os caminhos da voz, as estéticas possíveis. E conseguiu uma liberação não apenas da voz, mas do corpo'', observa Janete. E você, já parou para pensar quem é a sua voz?

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