UMA VOZ ATRAVÉS DAS DÉCADAS
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segunda-feira, 16 de outubro de 2000
Mariana Trigo TV Press 
A história de Cid Moreira se funde com o aniversário de 35 anos da Globo. Sua voz empostada que embalou as noites dos brasileiros por 27 anos na apresentação do Jornal Nacional, agora carrega um tom saudosista. Fiquei triste quando saí. Eu era a cara do programa. Deixar de seguir aquela rotina me fez sentir nu, desabafa Cid, que deixou a bancada do Jornal Nacional em março de 1996, e está no Guiness pela longa carreira de apresentador. Hoje Cid é um dos apresentadores do Fantástico, a revista eletrônica semanal da Globo. Já havia apresentado o Fantástico ao lado do Sérgio Chapelin, por 14 anos, desde quando ele foi lançado, acrescenta Cid.
Tanto tempo na mesma emissora o fez conquistar o salário número um entre os apresentadores de telejornal. Atualmente nem sei quanto ganho. A minha única preocupação é passar credibilidade, escapa. Antes do lançamento do Jornal Nacional e do Fantástico, Cid apresentou noticiários na Excelsior, Continental e TV Rio. O meu período como apresentador de jornais com a equipe do Fernando Barbosa Lima ultrapassou três décadas, gaba-se. Mas, antes da tevê, o paulista da cidade de Taubaté passou por várias rádios como locutor.
Cid estreou na Rádio Bandeirantes, em São Paulo. Quando mudou-se para o Rio, foi para a Rádio Mayrink Veiga, de onde saltou para os estúdios da tevê, já na Globo. No início a tevê era um bico. Ganhava mais em rádio e gravando comerciais. Fui contratado por 15 anos pela Marlboro, confidencia. Cid lembra que o início da televisão no Brasil foi baseado nos elementos do rádio, com programas de auditório e linguagem radialista. Fui para a tevê com a filosofia do rádio, que era o que eu sabia fazer, explica. Nessa época Cid também recebeu convites para atuar em novelas Não aceitei porque o Armando Nogueira, meu diretor e amigo, não queria misturar a minha imagem com a do meio artístico, revela com a voz empostada, como se estivesse lendo o teleprompter.
Logo depois de assumir a bancada do Jornal Nacional, Cid recebeu uma proposta para fazer um comercial ao vivo de uma pasta de dentes, com um cachê equivalente a cinco anos do salário que recebia na Globo. Tentei subornar a direção, o Armando Nogueira e o Walter Clark, dando 20% para cada um. Mas eles não queriam comprometer a minha imagem, diverte-se. Durante todos esses anos no comando do jornalístico mais respeitado da emissora, o Jornal Nacional, o apresentador atravessou diversos momentos que interferiram na divulgação das notícias. Na ditadura a censura estava presente 24 h por dia. O censor tinha uma sala especial, onde tudo passava pelo crivo dele antes de ir ao ar, recorda.
Mas, Cid prefere as lembranças engraçadas, que relatam o período em que a tecnologia era precária. Na época do mimeógrafo, o texto era impresso com uma tinta roxa que saía nas mãos e, volta e meia, os apresentadores apareciam com o rosto manchado. Alice Maria vivia com a mão e a boca roxa, garante, referindo-se à Diretora Editorial de Entretenimento da emissora, que na época era da área de jornalismo. Uma vez falei sobre um trem acidentado e apareceu a imagem de uma vaca. Nessa vez me aborreci e soltei um palavrão. O Boni me mandou um bilhete, pedindo-me contenção, lembra aos risos. Ele cruza as pernas e parece voltar no tempo. Outra vez estava aguardando o jornal entrar no ar. Acabei me desligando e de repente me falaram: vai, vai. Perguntei para onde. O jornal já estava no ar, brinca.
Para Cid, o clima descontraído que o envolve faz parte da intensa religiosidade evidente desde 1977, quando ele gravou o primeiro disco com mensagens bíblicas, o Desiderata, pela Som Livre. As mensagens com que encerrava o Fantástico, há tanto tempo, foram a semente do que faço agora, explica, referindo-se aos inúmeros CDs de salmos e mensagens religiosas, agora gravadas pela Warner. No ano que vem vou lançar um site religioso, adianta. A crença do apresentador se estende ao ofício. Cid lembra que antes de Cristo já existiam notícias falsas e verdadeiras. Hoje a imprensa é o primeiro poder, por derrubar e construir pessoas. Acima dela só há Deus, acredita.


