Uma voz a serviço das canções
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Marcos Roman<br>Reportagem Local 
Com afinação perfeita e emissão vocal irrepreensível, Mônica Salmaso vem se destacando a cada novo trabalho lançado desde a sua estreia em 1995 com o disco Afro-Sambas (tributo à obra de Baden Powell e Vinícius de Moraes).
Atualmente a cantora trabalha na divulgação do álbum "Alma Lírica Brasileira", recém-lançado pela gravadora Biscoito Fino em luxuoso pacote CD, DVD e blu-ray. O repertório é marcado por canções imortais assinadas por Chico Buarque ("Ciranda da Bailarina", "A História de Lily Brown" e "Valsinha"), Tom Jobim ("Derradeira Primavera") e Heitor Villa Lobos ("Melodia Sentimental"), entre outros clássicos da música brasileira.
Primando por um repertório impecável invariavelmente formado por pérolas da MPB de todos os tempos e trabalhando com músicos prestigiados, Mônica tem arrebatado críticos brasileiros e internacionais e conquistado um público fiel com sua música orgânica e carregada em doses exatas de emoção.
Dona de musicalidade e timbre refinados, Mônica usa sua voz como se fosse um instrumento a serviço das canções. Em entrevista à FOLHA, a cantora, que já conta com sete álbuns lançados, comemora o delicado registro em vídeo do show Alma Lírica Brasileira, filmado pelo premiado cineasta Walter Carvalho, e adianta que planeja voltar a percorrer o país com o espetáculo que é sucesso de público e crítica.
Você tem conseguido se destacar num país repleto de grandes cantoras. O que você acha que a diferencia das demais?
O Brasil é historicamente um país de muitas cantoras e eu acho que a quantidade delas não é, nem nunca foi, um problema. A qualidade do trabalho é que faz uma carreira durar mais ou menos. É a qualidade que desenvolve uma carreira e cria um público. Isso eu procuro fazer da melhor forma desde o início.
Sua voz e definida como um perfeito instrumento por conhecedores de música. Você sempre teve essa noção? Como descobriu seu talento?
Eu tinha muito prazer em cantar desde criança. Esse era um dos meus "brinquedos" favoritos e sempre tinha alguém adulto me elogiando ou dando algum incentivo. Quando comecei a estudar canto, com 18 anos, passei a estudar os cantores de quem eu gostava. Ver como eles usavam a voz e a relação destas vozes com os instrumentos que estavam sendo tocados. A voz é um instrumento "de falar e de fazer música".
Resgatar pérolas da MPB tem sido uma das marcas do seu trabalho. Como se dá esse processo de escolha do repertório?
Isto acontece pra mim de uma forma muito natural. Eu nunca compus, nem tenho nenhuma vontade. Meu grande prazer é escolher o que cantar dentro do que outros compuseram. Adoro fazer isso. Adoro encontrar, conhecer ou mesmo lembrar uma música feita por outra pessoa que tem muito a ver comigo (e, logicamente, com muitas outras pessoas) e tenho a vontade natural de vestir essa música com meu jeito e dos músicos que tocam comigo para mostrá-la. Esse é o meu ofício.
Como você definiria o CD e DVD do show Alma Lírica Brasileira?
Este projeto tem um significado muito bonito pra mim. É o resultado de anos de trabalho, de conhecimento e intimidade musical com o Teco e o Nelson Ayres, do meu olhar sobre o Brasil, a sua cultura e a sua poesia. Acho que eu não conseguiria ter feito este trabalho assim antes. Eu precisava de uma maturidade que percebi através dele que eu já tenho. Isso me trouxe uma grande felicidade.
O que achou do resultado do DVD dirigido pelo Walter Carvalho? Como foi essa experiência? Pretende voltar a trabalhar com ele?
Este DVD foi o maior presente que eu já ganhei na minha carreira. Eu e o Teco Cardoso somos grandes fãs do trabalho do Waltinho, temos em casa muitos dos filmes dirigidos e fotografados por ele. Quando a Biscoito Fino nos propôs a gravação deste DVD, a ideia era de gravarmos um show ao vivo. Como este show a gente já tinha feito por mais de um ano, estávamos muito seguros dele, a gente só queria que ele fosse bem captado e tivesse o melhor som possível e uma leitura de imagem autoral, criativa e sensível. Tivemos muita sorte em o Teatro Alfa de SP (que tem um piano maravilhoso!) nos apoiar e ceder o palco, e de o Waltinho aceitar nosso ousado convite. Hoje eu tenho certeza de que ninguém poderia ter feito essa tradução de imagem tão bem, com tanta propriedade e delicadeza como ele fez. Foi um presente de grande generosidade que ele nos deu. Torço para que a gente possa trabalhar juntos muitas outras vezes.
Você sente mais prazer no palco ou nos estúdios?
Sinto prazeres diferentes. No estúdio, eu fico mais próxima da música, mais concentrada nela. Ficamos eu e ela. No palco, eu canto para aquela plateia que está lá. Eu levo a ela as belezas que eu escolhi. Fico vaidosa por mostrá-las e gosto muito de fazer isso. São prazeres diferentes e complementares neste sentido.
Quais são seus ídolos na música?
Tenho muitos ídolos. Alguns deles são Dorival Caymmi, Chico Buarque, Orlando Silva, Bobby McFerrin, Maria João, Clementina de Jesus... Em janeiro conheci uma cantora contralto italiana chamada Sara Mingardo. Estou totalmente encantada com ela. Ouço todos os dias.
Quais cantores e cantoras tem ouvido atualmente?
Além desses que eu citei acima, eu tenho ouvido um cd muito divertido de uma cantora nova chamada Raissa Bittar e um trio sensacional chamado Conversa Ribeira que relê a musica caipira com muita elegância, inteligência e musicalidade.
Vai percorrer o país com esse show?
Já fizemos bastante coisa, mas nunca é suficiente. Agora, com o DVD, nasceu um show muito divertido de fazer que é um diálogo entre o show tocado ao vivo e projeções de partes editadas do DVD. Fizemos este show somente duas vezes, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. Foi muito bom e eu sonho em poder repeti-lo em forma de uma turnê. Estou atrás de patrocínio para viabilizar esta possibilidade.
Quais são seus próximos projetos musicais?
Além dessa possibilidade de viajar com o lançamento do DVD do Alma Lirica Brasileira, no final deste ano devo gravar meu próximo CD com músicas exclusivamente da parceria do Guinga com o Paulo César Pinheiro. São muitas delas inéditas que estavam guardadas há muito tempo. Algumas delas têm a minha idade! Rsrs. É um repertório primoroso!


