Ela trocou a dramaturgia por jam sessions em bares de hotéis luxuosos, como o Baretto, do Fasano. Até que a iluminação intimista e o público restrito cederam espaço para os holofotes da grande mídia e mais um bocado de apreciadores da boa música. Hoje, aos 27 anos, a paulistana Ana CaÀas integra o casting da Day 1 Entertainment, braço da gravadora Sony BMG, e é apontada como a grande revelação da música brasileira pelo lançamento do CD ''Amor e Caos''. Elogios, aliás, é o que não faltam, sejam eles de Chico Buarque, Toquinho, Seu Jorge ou de jazzófilos anônimos que se encantaram pela desenvoltura nas interpretações de Ana e sua aveludada voz de contralto.

Em trabalho autoral - com apenas três regravações, entre elas ''Rainy Day Women'' (Bob Dylan), ''Coração Vagabundo'' (Caetano Veloso) e ''Super Mulher'' (Jorge Mautner) - a artista precoce que desconhecia Tom Jobim é alucinada por Amy Winehouse, tem em Regina Spektor seu marco zero para o nascimento de sua veia compositora e vem descobrindo sons de ACDC, Iggy Pop e da cantora Feist. Agora, desfruta de um contrato com a major para cinco discos. Como bem diz em ''Devolve, Moço'', sua música de trabalho, ''O meu universo ainda despreza quem não sabe o que quer''. E pelo jeito, ela sabe bem o que quer. Confira os principais trechos da entrevista que Ana CaÀas concedeu à FOLHA2.


Você estudou artes cênicas na ECA-USP. E, pelo que me consta, como atriz você se mostrou uma boa cantora. Concorda?
Eu diria que como péssima atriz eu me tornei uma cantora razoável (risos). Porque, apesar de sempre ter mexido com teatro (direção, dramaturgia, cenário, sonoplastia) eu nunca tinha me encontrado no teatro como eu me encontrei com a música. Inicialmente, eu busquei trabalhar com a música mais por necessidade do que pela coisa de ''quero ser cantora''. Eu saí de casa cedo, com 20 anos, enfim, pra pagar aluguel vivendo de teatro no Brasil é impossível, é quase uma missão heróica. Então comecei a fazer um monte de bicos.


Chegou a gravar jingles e coisas do tipo?
Não, eu nunca gravei jingles. A primeira coisa que pintou com música foi quando um amigo meu me ligou e comentou sobre um teste para um musical. Eu só cantava em roda de amigos com violão. E como eu estava devendo muito aluguel, estava superdura, eu topei. No teste me deram ''Night and Day'' da Ella Fitzgerald para interpretar. Eu não conhecia jazz, vim de uma família superlimitada musicalmente, sem músicos na família, enfim, nem conhecia Tom Jobim pra se ter uma idéia. Eu fui uma adolescente superradiofônica, então eu pirei naquela música, fiquei impressionada pela forma como ela utilizava a voz como um instrumento. Então começou a pintar trabalho, convite pra tocar em hotel. Aí eu comecei a levar a sério a música e percebi que para isso eu deveria cantar nas noites.


Há quanto tempo você vinha trabalhando neste disco? Iria lançá-lo de forma independente ou já havia propostas de majors?
Eu iria lançar de qualquer jeito. Eu comecei a fazer o disco independente, pagando do meu bolso - estava totalmente falida porque é supercaro -, e quando o disco já estava 70% finalizado começaram a aparecer propostas de gravadoras. Quando a Sony apareceu, eu estava em uma situação confortável de dizer não a eles. Então, pude mostrar que queria o disco assim, sem mudar nada.


E o seu contrato é para quantos discos?
Eu tenho um contrato para cinco discos. Isso deve tomar uns oito anos da minha vida, pois devo lançar um disco a cada um ano e oito meses. Esse prazo eu também negociei já que eles queriam um prazo muito menor. Então, eu fui mostrando o trabalho que eu queria fazer em longo prazo com mais cuidado, que tenha essa preocupação estética também visual, e eles foram entendendo isso e gostando. Existem exemplos na música brasileira de integridade artística e sucesso comercial; a Marisa Monte, entre outras. E tem dado certo, o retorno tem sido muito positivo. E está sendo bacana pra todo mundo: para os ouvintes, pra mim, pra gravadora e para os novos artistas.


E dessa chamada nova geração de cantoras, quem você aponta?
Eu acho interessante a forma como têm surgido cantoras novas com personalidades distintas. Apesar de as pessoas terem a tendência de enfiar a gente no mesmo saco, eu acho que a médio, longo prazo isso vai se desfazer, e eu admiro todas. A Mariana (Aydar) é muito minha amiga - a gente sai pra beber juntas -, a Céu e a Roberta Sá são os trabalhos mais expressivos que eu tenho acompanhado. O fato de estar existindo esse público novo, da geração internet, é importante. Eu acho que depois do suceso da Maria Rita, as pessoas me dizem ''poxa, voltaram as cantoras'', eu digo que não, pois sempre existiram cantoras no País.

Como a máxima: ''o Brasil é o país das cantoras''...

É, sim, o País das cantoras. Isso é muito engraçado, pois em todo canto tem cantora. Mas acho que foi depois de a Maria Rita ter lançado seu primeiro disco que vendeu quase um milhão de cópias, as gravadoras voltaram a investir em cantoras. Na década de 90 acho que a grande aventureira foi a Marisa Monte, que passou meio ilesa do axé.


''Amor e Caos'' é um trabalho de grande consistência autoral, já que sete das dez faixas são suas. Desde quando você compõe?
Eu componho há um ano. É super-recente. Eu comecei a compor para fazer o disco. Eu fiz uma temporada de shows em São Paulo só com releituras, e no meio do repertório eu incluí uma música minha - que, aliás, não entrou no disco, era supercareta. Achei interessante o fato de as pessoas se interessarem demais por essa canção. Então eu entendi que as pessoas se interessavam pela maior exposição que somente da intérprete.


Já iniciou turnê?
Eu tenho feito algumas coisas; fiz Florianópolis, São Paulo e Rio. Depois Brasília... No Paraná a gente está negociando. Estamos também com convite de Portugal. O disco será lançado na Europa e América Latina. Acho que as portas estão se abrindo bem. Eu estou superfeliz, pois a música me dá tudo na vida. Cada móvel que tenho em casa eu comprei com a voz.

- CD Ana CaÀas - Amor e Caos (Sony BMG)
Quanto - Preço sugerido R$ 20
Mais informações - Site www.sonybmg.com.br

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